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[Crítica] Ricardo Adolfo – Depois de Morrer Aconteceram-me Muitas Coisas

Ricardo Adolfo não é um novato nestas andanças. Com quatro obras editadas, este publicitário nascido em Luanda no revolucionário ano de 74 começa a entrar sorrateiramente do universo mais reconhecível dos autores portugueses.

Na sua mais recente obra, «Depois de Morrer Aconteceram-me Muitas Coisas», o autor aborda na emigração um tema porventura esquecido da literatura portuguesa actual. E se é certo que a emigração dos portugueses não tem sido esquecida, em especial os fluxos migratórios ligados às colónias ultramarinas finda a Guerra Colonial, a verdade é que a emigração dos dias que correm, a segunda vaga, se quisermos, de cidadãos nacionais que escolheram procurar dias melhores noutro país, acaba por ser um tema ausente da escrita nacional.

Ricardo Adolfo, também ele emigrante, actualmente a viver em Amsterdão, consegue congregar neste livro as imagens, as sensações, os cheiros e os problemas, no fundo, a vida de uma família de emigrantes portugueses.

E se o autor opta por não divulgar abertamente o país em questão (ficamo-lo a conhecer apenas como “Ilha”), o facto é que esse dado também pouco mais seria do que irrelevante. Não há como não nos identificarmos com as preocupações, dúvidas existenciais e falhas de carácter das personagens, em particular do narrador, independentemente do país para o qual se tenha transplantado.

Escrito inteiramente na primeira pessoa, é pelo olhar do pai de família que vivemos e vemos as dificuldades de adaptação a um país novo e a constante luta para a integração numa sociedade tudo menos receptiva à entrada de figuras externas.

Matando e ressuscitando Deus, perdendo e ganhando coragem, amaldiçoando uma mala de viagem e percorrendo caminhos desconhecidos, sofrendo as consequências de escolhas amargas, acompanhamos ao longo de 200 páginas a ilusão deste narrador imigrante, tal como a de muitos outros, portugueses ou não, a desvanecer-se com o passar do tempo.

«Depois de Morrer Aconteceram-me Muitas Coisas» acaba por ser um manual de sobrevivência emigrante, composto essencialmente pelos caminhos que se devem evitar seguir. Não se pode afirmar que só um emigrante como Ricardo Adolfo poderia ter escrito este livro, mas quer na linguagem utilizada pelas personagens, quer nas atitudes tomadas por estas, a proximidade com o sujeito parece ser a chave do realismo desta obra.

- Entrevista Ricardo Adolfo a Pedro Justino Alves, do Diário Digital.

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Apreciador de música, cinema, livros. A bem dizer, apreciador de tudo um pouco. Co-criador e editor do projecto ilícito[mag]. Para mais sobre este indivíduo, visitem http://flavors.me/bmcn.

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