Primeiro, é a capa. A edição – maravilhosa. Nós até podemos ter lido no Público – e lemos – algumas crónicas e reportagens de Alexandra Lucas Coelho a partir do Afeganistão, mas fazê-lo numa edição como a do «Caderno Afegão» – parte da excelente colecção de literatura de viagens da Tinta da China, coordenada por Carlos Vaz Marques – é um suplemento mais que delicioso, mesmo para um indefectível de jornais – o que, aliás, é o caso.
Depois, o óbvio: o Afeganistão é, aos nossos olhos, aquilo que pessoas como Alexandra Lucas Coelho (jornalistas, normalmente, com risco da própria vida) nos têm dado a ler, mas, principalmente, a ver. Mas o que Alexandra Lucas Coelho faz com o seu «Caderno Afegão» é, precisamente, dar a conhecer para lá dessas imagens rotineiras de telejornal.
Com o olhar incisivo de repórter e a sensibilidade de uma mulher (num país que não é para mulheres), ela pessoaliza e humaniza os afegãos. Porque lhes acede: contacta da mesma forma a deputada Fauzia Kufi, que recebe todos os cidadãos que o desejarem, ou a fotógrafa de 18 anos Zubaida Akbar que estudava, à época, numa escola suíça perto de Lausanne. Como se não bastasse, Alexandra Lucas Coelho escreve sempre tão bem, como diz Carlos Vaz Marques no prefácio.
Alexandra Lucas Coelho escreve como viveu. Com intensidade, mas sem uma única vírgula fora do lugar. E nós vivemos com ela: nas vezes sem conta em que foi obrigada a cobrir a cara. Quando teve de viajar por estradas péssimas sob a ameaça de bandidos ou taliban – ou ambas. Quando acordou com tiros e explosões, enquanto o céu tremia. Quando foi confrontada com mães com o útero de fora, com crianças com espinha bífida.
Mas também quando Alexandra Lucas Coelho visitou a casa da família que “estrela ovos numa bilha de gás, mas lê os filósofos sufis e Wittgenstein”, para além de Heidegger, Kierkegaard, Nietzsche, Baudrillard ou Foucault. Ou as águas de Band-e-Amir. Ou o sonho do jovem afegão regressado da América que teimava em treinar uma equipa feminina de boxe.
O Caderno Afegão é um tratado de coragem. A bem da nossa designorância. A bem da visita a um lugar que nunca visitaríamos de outra forma – e que nunca veríamos com outros olhos sem um «Caderno Afegão». E é, também, um tratado de esperança. “Uma afegã-americana que vive em Atlanta veio mostrar o Afeganistão aos filhos, ao fim de 30 anos. Uma velha americana do Ohio diz-lhe que está a chorar porque os afegãos têm tanto amor para dar”, escreve, às tantas, Alexandra. Depois do «Caderno Afegão», podemos ver telejornais de outra maneira.
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Nome: Pedro F. Guerreiro
Número de Artigos: 15
Jornalista. Amante de literatura, política, cinema, música, desporto e senhoras.

