Malik, jovem de descendência árabe entra numa prisão pela primeira vez aos 19 anos.
Analfabeto, rebelde, amedrontado face a um ambiente desconhecido, em “Um Profeta”, o mais recente filme de Jacques Audiard, o seu protagonista é mais uma vez um lutador desesperado por uma vida diferente, tal como o aprendiz de pianista (Romain Duris) em “De Tanto Bater o Meu Coração Parou” (2005).
A Tahar Rahim, o profeta em questão, a sua magistral interpretação valeu-lhe o prémio de melhor actor nos Prémios do Cinema Europeu de 2009, um reconhecimento mais do que devido, conseguido de forma extraordinária por um estreante.
Longe de ser uma personagem inédita, a do presidiário, vestida em idos anos na história do cinema por Steve McQueen, em “Papillon” ou Paul Newman em “Cool Hand Luke“, em “Um Profeta” Tahar Rahim fez uso das subtilezas, dos pequenos gestos, acima de tudo no olhar, respirando como Malik, olhando como Malik, sofrendo como Malik, um jovem sem personalidade, sem história, sem identidade quando o vemos no início da película. Um zé-ninguém de corpo inteiro, se quisermos.
E nesta história, o momento chave de Malik é também o momento chave de todo o filme. A escolha entre matar ou morrer. Matar o único elemento que demonstra algum afecto na sua direcção num mundo totalmente inóspito. Matar para não ser morto, para ganhar um lugar, ainda que pequeno, nesta nova sociedade onde a hierarquia é dominada pela máfia Córsega e por um tipo de meia-idade, César (Niels Arestrup, regular no cinema de Audiard) de seu nome.
Construindo uma ascensão sustentada, a história do anti-herói Malik é feita de reverência, inteligência, instinto de sobrevivência, traição e honra, elementos fulcrais na criação de um profeta.
Uma figura que surge do nada para unir tudo e todos, possuidora de uma visão para o futuro, descomplexada, não-racial, movida pelo negócio, pelo dinheiro, pelo capitalismo, com o singelo aspecto de ser no mundo do crime.
O novo cinema francês, o novo cinema europeu, a poderosa visão do novo cinema mundial, a visão de Jacques Audiard, a mestria de Tahar Rahim. “Um Profeta” nasceu para ser incontornável.
- Entrevista de Tahar Rahim ao jornal Times
- Entrevista de Vasco Câmara a Jacques Audiard no suplemento Ipsílon

