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As várias vidas de Carlos Nobre

Chegou ao mundo da música em 1994 com o EP More Than 30 Motherf*****s, na companhia de Jay Jay, Yen Sung e de Armando Teixeira, presentemente no projecto Balla.

De 1994 a 2010 foi e continua a ser um tal de PacMan, apenas Pac ou simplesmente Carlão, o que faz de Carlos Nobre um criador especial, daqueles que possuem o dom das múltiplas personalidades.

No universo de Fernando Pessoa, o último heterónimo – dos mais produtivos – a vir ao mundo foi Álvaro de Campos. No caso de Carlão, como pediu ao ilícito para ser tratado “por ser o mais normal”, o ano novo trouxe ao mundo “Pacotes e Pacotinhos”, uma personagem que navega pelos meandros da spoken word e da slam poetry, uma sombra que vagueia pelos subúrbios desabafando com tudo, com todos, e consigo próprio, por entre o uso indiscriminado de vernáculo e a declamação de versos desse mesmo, Álvaro de Campos.

Em «O Algodão Não Engana», Carlão, que conheceu o sucesso com os Da Weasel e os singles «Dúia», «Todagente», «Tás na Boa» e «Outro Nível», por entre muitos outros, surge assim a solo, dedicado à palavra, no que podia ser perfeitamente apenas mais um desses projectos secundários que alguns músicos teimam em amontoar.

Disponível para consumo gratuito através de um simples descarregamento em www.oalgodaonaoengana.com, de acordo com o autor, este projecto teve a sua génese “depois de uma série de desbundas” criadas no programa da Apple, «Garage Band».

“Peguei em textos que à partida nunca seriam musicados, meti uma base aqui, meti um baixo ali… deu-me muito gozo todo esse processo muito solitário”, confidencia o também co-autor da banda sonora de «O Crime do Padre Amaro», criada em parceria com Sam the Kid.

Acrescentando aos textos a companhia de dois beats criados por Lil’ John (membro de Buraka Som Sistema , 1-uik project e do colectivo Cooltrain Crew) numa colaboração para um festival de poesia em Berlim, em 2008, e outro da autoria do produtor e DJ Madkutz, Carlão surge assim pela primeira vez num projecto a solo, numa altura em que alguns dos seus camaradas da “doninha” optaram também por criar sonoridades paralelas, como Virgul com os «NuSoulFamily» e Quaresma e João Nobre (Jay Jay) no projecto «Teratron».

Justificando o lançamento a solo com a ideia de que “o material era excessivamente íntimo e pessoal para caber em qualquer outro lado”, o artista da margem sul mostra-se no entanto algo avesso a colocar uma etiqueta neste novo projecto, descartando também, por agora, a apresentação em palco de «O Algodão Não Engana». “Por enquanto não estou a pensar nisso, não. Como disse atrás, fiz algo aproximado com o Lil’ John em Berlim e ambos gostámos do resultado. Pode ser que um dia se monte qualquer coisita, mas para já não está nos meus planos”, refere Carlão ao ilícito.

Para além do género musical e poético deste trabalho, o projecto de Pacotes e Pacotinhos ganha também destaque pelo facto de ser disponibilizado gratuitamente na internet, uma acção que o coloca a par de «Phalasolo», álbum criado por New Max (membro dos Expensive Soul) editado em Janeiro de 2009 e ao projecto Optimus Discos, como exemplares de música portuguesa de qualidade que chega aos consumidores sem quaisquer encargos financeiros.

Foto retirada do artwork correspondente à faixa «Upa, Upa»PacMan, Carlão e agora Pacotes e Pacotinhos.

“Achei por bem disponibilizar os temas gratuitamente online primeiro porque acho que é um bocado “a cara” d’ “O Algodão” – não me interessava muito uma edição física e depois a ideia era mesmo partilhar, não ganhar dinheiro com isso”, revela Carlão, sem esquecer que “foi tudo feito um bocado no espírito de gravar as coisas com o mínimo de condições para soar razoavelmente bem, nunca houve a ideia de fazer alta produção, pelo contrário”.

Considerando que neste caso, tal como dizia o mordomo no anúncio ao produto de limpeza, “o algodão não engana”, também o produto final não falha nos seus intentos, criando uma envolvência perversa, de boémia urbana e de revolta, uma libertinagem que é interrompida nas faixas finais do álbum, especialmente na repetição frenética de um grito de alerta em «Reage, Acorda», uma indicação complementada pelo artista: “Conscientemente não penso em nenhuma reacção que não a de as pessoas desfrutarem das estórias, dos poemas e da música, mas quando se chega ao final de “O Algodão Não Engana” pode pensar-se que em momentos até posso estar a embelezar ou glorificar aquele imaginário mais decadente. “Tempo de Reagir” e “Reage/Acorda” fecham o disco precisamente para meter “ordem na casa” e clarificar um pouco as coisas, a começar por mim próprio” relata Carlão.

Afirma nunca ter comprometido a sua criatividade nos álbuns em que participou e que foram distribuídos por editoras, e muito menos neste mais recente registo, filho directo da sua criação. As letras, essas “vieram quase sempre em primeiro lugar” no processo criativo de Pacotes e Pacotinhos, ou não fosse esta uma obra dedicada à palavra, à poesia, seja ela spoken word ou slam poetry, géneros para o qual Carlão acredita que “há público e mercado” no país do fado, do futebol e de Álvaro de Campos.

- Download do álbum «O algodão não engana»

* Entrevista realizada por Bruno Nunes e Pedro Martins

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Nome: Bruno Nunes

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Nome: Pedro Martins

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