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«Tudo pode dar certo»

Larry Allen ou Woody David?

É quase patológico: tem de haver um Woody Allen em cada Woody Allen. Já houve um Allen-mulher ou vários Allens-ele-próprio. Desta vez, é Larry David (o argumentista de Seinfeld ou de Calma Larry). E é difícil perceber se Larry não tinha já andado por aqui – e se não, porquê?

Nós já vimos este filme antes – e isto não é uma metáfora: temos um judeu recém-divorciado de meia-idade (ele próprio, Allen, claro) genial, erudito e verborreico, mas também hipocondríaco e atormentado com o facto de ser perecível. Estão a ver?

Depois de ter estado à beira de ganhar o Nobel, o físico Boris Yellnikoff tem uma vida descansada, com rotinas como ensinar xadrez a crianças – maltratando ocasionalmente algumas delas – ou lavar as mãos enquanto canta o «Parabéns a você» – para afastar os micróbios, naturalmente. Até que aparece uma jovem lolita. Nada mais, nada menos do que a saloia Evan Rachel Wood, uma ingénua e ultra-conservadora rapariga do Sul, de quem Yellnikoff – ou devo dizer Larry? ou direi antes Woody? – se faz mentor intelectual e amante.

Este Woody, deve dizer-se em abono da verdade, também não é o Woody de sempre: há intelecto e génio, mas na vez do trapalhão de sempre, soma-se-lhe a rabugice própria de Larry.«Tudo pode dar certo» revela Larry David como novo Woody Allen, mas marca também um regresso ao passado do realizador nova-iorquino: este filme assinala, precisamente, o regresso a Nova Iorque.

Depois de boas fitas de rastro europeu (Vicky Cristina Barcelona ou Match Point, por exemplo), Woody Allen volta a jogar no seu terreno e assume a descontinuidade relativamente aos filmes anteriores: «Tudo pode dar certo» assume o Woody dos late 70’s e 80’s de «Manhatan» ou «Annie Hall».

Perguntem-me: mas então há aqui algo de novo? Nada – para além de Larry David, que se não é um grande actor de comédia, é pelo menos um performer (de si próprio, claro) nato. Mas é um Woody Allen – e um Woody Allen de regresso ao passado. E o passado – e algum presente – de Woody Allen é, segundo nos lembramos (e achamos), glorioso.

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Nome: Pedro F. Guerreiro

Número de Artigos: 14


Jornalista. Amante de literatura, política, cinema, música, desporto e senhoras.

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3 comentários

    Então já agora gostava de saber o que acharam do filme! É que esta critica nem uma nota tem! Eu vi o filme e amei! Fantástico mesmo. Porém nesta "critica" denoto alguma coisa do tipo: "é mais um filme do Woody Allen…" Gostava de saber mais sobre o que achas Pedro. Descobri este site hoje e estava à espera de mais…
    Abraço

    • Viva João.

      De facto, a crítica não tem nota. Mas tem texto. Se quer saber o que "achámos" (achei, já agora) do filme, talvez possa ler o texto. É uma boa ideia. Pessoalmente, e porque é a esse título que falo, acho as notas um método pernicioso para avaliação de filmes – tal como livros, música ou peças de arte. Acontece que filmes são coisas qualitativamente muito dificilmente quantificáveis – e quando, o são, tende-se para a comparação, que é, por norma, também enganosa. E nós não queremos enganar ninguém – os números não são o nosso métier. Quanto ao filme em questão, ainda bem que o João amou o filme. Nós também apreciámos [ler acima, a propósito] – agora não me peça para dar notas…
      Em relação ao facto de estar à espera de mais do site, desconheço quem lhe criou tamanhas expectativas. Nós cá continuaremos, a fazer o melhor que podemos e sabemos – e eventualmente, a melhorar.
      Volte. A gente vê-se. Um abraço

      • Bem, realmente… Tenho de concordar consigo… Mea culpa… Não li bem o texto… Desculpem a sério :S Agora sinto-me mesmo mal… É que estou habituado a ver criticas de cinema seguido de uma nota qualificativa… De facto tem razão no que diz.. Dar notas é despropositado… Minhas desculpas! Qualquer outro individuo não respondia ou até mesmo começava a insultar (eu conheço bem o mundo da blogsfera e sei do que falo)
        Errei e admito. Desculpem
        Continuação com o projecto ;) Contem com a minha visita
        Abraço

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