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[Crítica] «A Cura de Schopenhauer» de Irvin D. Yalom

A capa da versão inglesa do livro.

Depois do best-seller, Yalom volta para nos surpreender. Se «Quando Nietzsche chorou» foi  uma pedrada no charco dos romances de “pseudo-auto-ajuda” que ensinam realmente  qualquer coisa, o autor agarra noutro ser incompreendido, que ficou na história pelos seus aforismos e outras prendas legadas à estúpida Humanidade.

Se atentarmos bem o trabalho de Yalom, existe um novo fôlego filosófico, aliado à psicanálise e afins, advindo da formação e experiência profissional do escritor.

Numa ginástica literária entre um presente urbano, agitado, cruel e os confins de um  aglomerado citadino na Europa dos inícios do século XIX, vamos descobrindo esse filósofo alemão e o seu impacto no mundo dos “bípedes”. Nesses dois fios de história / enredo, o tom é obrigatoriamente distinto. Se no presente lemos, de facto, a ficção engendrada pelo autor, no segundo caso, que remete para a vida “quase” reclusa de Schopenhauer, assume contornos enciclopédicos, de um compêndio biográfico que acumula factos e fontes epistolares para nos abrir a atmosfera pessimista do filósofo.

Aspecto interessante, se bem que esperado, é a colocação de frases-mestras no arranque de cada capítulo. Na tradição dos melhores (e piores, também) livros de auto-ajuda, cada parte da obra é encimada por uma citação de Schopenhauer. Algumas destas são brutais na sua frieza, outras meramente explicativas, mas, sempre presente, está o âmago da filosofia desenvolvida pelo solitário alemão: o pessimismo perante a mediocridade humana, a necessidade de isolamento quando a consciência da genialidade amedronta o próprio génio, e, claro, numa antecipação à psicanálise freudiana (outro tema forte para Yalom), a importância fulcral dos impulsos sexuais no determinar de toda e qualquer acção por nós perpetuada. Mesmo assim, e a biografia de Schopenhauer atesta uma intensa vida sexual, este lado semi-obscuro da mente humana é rebatido pelo filósofo pela “sujidade” que envolve. Esta frase é disso exemplo: “O sexo intromete-se com o seu lixo e interfere nas negociações dos estadistas e nas investigações dos eruditos. Todos os dias destrói os relacionamentos mais preciosos e rouba os escrúpulos aos que antes eram honestos.”

Mas, voltando à história, que cura é esta que o título apresenta? Pegando na sua experiência como psicoterapeuta, Yalom cria um grupo de personagens que, em sessões de terapia semanais, procuram solução / explicação / cura para os seus traumas / medos / desejos. Coordenados por Julius, o médico mental de serviço, as revelações sucedem-se e as questões levantadas por qualquer um deles poderiam, curiosamente, brotar dos nossos lábios num qualquer estádio da nossa vida.

O enredo começa com Julius, chegado à recta final da uma vida cheia de glória e,  relativamente, feliz, a descobrir que padece de um cancro. Perante a realidade dos factos e “com a vida a passar-lhe à frente dos olhos”, rumina uma eterna questão: “fiz alguma diferença neste mundo?” Entre os arquivos de antigos pacientes, durante uma busca para o seu “obrigatório” livro de despedida, encontra a ficha do seu maior fracasso: Philip. Volta a contactá-lo para saber como passava, se já estava “curado” da sua libido incontrolável, e é a partir daqui que a intriga se adensa. Convidado, embora renitente, a participar na terapia em grupo que Julius conduz, Philip mostra-se um ser frio, distante, execrável, fechado na sua vida rotineira e na sua estranha obsessão com Schopenhauer. Sessão após sessão, dilema após dilema, e enquanto os dramas de cada “membro” do grupo vão sendo desfiados, Philip também se vai soltando. E que papel tem o filósofo alemão nisto tudo? Antes do inesperado telefonema de Julius, muitos anos depois das consultas que não deram quaisquer resultados, Philip já era o mesmo “garanhão”. As leituras de grandes filósofos e uma estranha empatia com o alemão pessimista, tanto na vida como nas palavras, trouxeram-lhe a mudança. Como o próprio personagem refere: “Schopenhauer salvou-me a vida”, um paradoxo posteriormente explicado, já que, num dos seus eternos ataques de depressão perante a miudeza da estupidez do Homem, o alemão foi mais um dos génios que escolheu o isolamento como refúgio.

A partir daqui tudo se desenrola e, alternando as animadas sessões de terapia com os dados biográficos de Schopenhauer, Yalom consegue manter o leitor entretido. Embora se afaste do ritmo vertiginoso que nos ofereceu no seu livro anterior – talvez porque Nietzsche seja um personagem mais completo / complexo? -, o livro entretém e, mais que isso, leva a que muitas pausas se sucedam. Porquê? Porque cada aforismo novo, cada citação do velho e desgraçado Schopenhauer leva a uma racionalização, uma forte atenção sobre o que a vida encerra e, como pessimista que era, se a felicidade não será apenas uma fase passageira pela ausência momentânea do sofrimento que, todos sabemos, ser garantido.

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Jornalista. Leitora. Jornalista de literatura e leitora de jornalistas.

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