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[Crítica] «Autoretrato do Escritor» é um exercício falhado: por aqui, não se ganham murakamianos

Há uma palavra que subjaz a todo este livro de Haruki Murakami: obstinação. Pode questionar-se o que leva um dos maiores romancistas contemporâneos (uma estrela pop da literatura, um nome todos os anos aventado para o Nobel) a escrever um ensaio auto-biográfico sobre corrida de fundo. Murakami dá-nos uma certeza: ninguém o incumbiu da tarefa. No epílogo, diz que se trata “de uma espécie de memórias”, e que, depois de o ter acabado de escrever, se libertou “de um peso que carregara aos ombros durante bastante tempo”.

Em primeira instância, o “Auto-retrato do Escritor enquanto corredor do fundo” [“What i talk when i talk about running”, no inglês, adaptado do “What i talk, when i talk about love”, de um dos seus ídolos literários, Raymond Carver] levanta uma questão quase tão velha como a vida: afinal, o que move os escritores? Talento ou trabalho? Génio ou labor? Num exercício de extrema modéstia (não questionaremos se falsa), Murakami faz a sua declaração de interesses: acha-se um escritor com as suas “limitações”. Para ele, “a escrita de romances é um trabalho físico”. E vai daí, desata a correr. Não uma corrida de cinco ou dez quilómetros, duas ou três vezes por semana, como fazem os joggers normais. Não: estamos a falar de um treino duro diário,  verdadeira corrida de fundo, de meias-maratonas para cima – e o cima, aqui, chegou a ser uma mega-maratona de cem quilómetros.

Porém, o que é assumido por Murakami como suporte físico para a sua actividade – escrever romances – assume contornos mais densos que isso. Murakami parece, quase sempre, preocupado com a perda das suas faculdades físicas, com a passagem dos anos sobre si próprio e sobre o seu corpo. E é por isso, também, que, para além da correlação entre a corrida de fundo e a escrita de romances, este é, também, um ensaio sobre a velhice.

Murakami tem, actualmente, 61 anos e o que podia ser um passatempo saudável soa a obsessão com a velhice e – arriscamos – a uma espécie de expiação para certa dose de imperfeição. E o Murakami desta semi-biografia é razoavelmente imperfeito: é fácil antipatizar com a pessoa por de trás de romances tão brilhantes como “Kafka à Beira-Mar” ou “Norwegian Wood”. A dada altura, Murakami assume-o: não crê que as pessoas tenham interesse pela sua pessoa – não tem vida social; as suas únicas actividades são escrever e correr, pelo que nunca lhe passaria pela cabeça escrever uma biografia “a sério”.

Para alguém com uma imaginação tão prodigiosa, “Auto-Retrato do Escritor enquanto corredor de fundo” é um exercício falhado. Um exercício interessante, claro, mas ainda assim falhado. Uma meia-biografia despojada de estilo. A espaços, há fogachos interessantes: apontamentos sobre os interesses pessoais e literários de Murakami, por exemplo. Mas há quem tenha escrito muito melhor sobre corrida de fundo. “Auto-retrato do escritor enquanto corredor de fundo” não traz ninguém para o universo murakamiano.

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Jornalista. Amante de literatura, política, cinema, música, desporto e senhoras. Seguir, aqui: http://objectoquase.blogspot.com

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