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«Fantastic Mr. Fox»: Quando Wes Anderson faz de La Fontaine

Um corvo pousado em cima de uma árvore com um naco de queijo atraí uma raposa que tudo faz para lhe sacar o alimento, acabando eventualmente por o conseguir. A moral desta estória, ou melhor, fábula, escrita no século XVII pelo incontornável Jean de La Fontaine , em nada terá que ver com o filme que Wes Anderson apresentou no final de 2009, mas a verdade é que, inevitavelmente, damos por nós a fazer esta relação durante a visualização de «The Fantastic Mr. Fox».

Munido de uma autêntica dream team de actores de Hollywood, que reúne as vozes de George Clooney, Meryl Streep, Jason Schwartzman e Bill Murray, Wes Anderson consegue criar uma obra ímpar naquele que é o actual panorama de filmes de animação, no chamado circuito main stream cinematográfico, onde, salvo raras excepções, o factor de diferenciação neste género tem sido relativamente baixo. Abdicando do badalado 3D e de um conjunto de artimanhas visuais, o autor serve-se de um conjunto de técnicas antiquadas, das quais se destaca o stop motion, para adaptar o conto homónimo, escrito em 1970 por Roald Dahl, autor conhecido sobretudo pelos contos para crianças onde se destaca Charlie and the Chocolate Factory, recentemente adaptado ao cinema por Tim Burton – outro dos que teima em contrariar a regra de três simples na produção de cinema de animação.

Assim, surge um universo “La Fonteaiano” onde as raposas falam, socializam com toupeiras, trabalham e têm sonhos. Um universo onde o realismo acaba renegado para segundo plano, em função da estória, sem “h”, que aborda a vida de uma raposa, de nome Fox, que se vê forçada a abandonar a sua vocação – roubar galinhas, inevitavelmente – em função de uma carreira mais estável, como colunista de um jornal local. O motivo? Constituir família, obviamente.

Até que, quando tudo parecia encaminhado para uma vida rotineira e até aborrecida, num buraco, este ousa desferir um último golpe – dos grandes – a três agricultores locais, conhecidos pelos seus métodos intransponíveis de segurança. E assim, Mr. Fox transforma-se numa espécie de Danny Ocean de quatro patas, planeando ao pormenor o saque a três “casinos”, recheados de galinhas e cidra.

A partir daqui o filme assume um ritmo frenético de perseguições, apesar do stop motion, onde é por demais evidente todo o processo de construção de personagens cheias de imperfeições e problemáticas, características de Wes Anderson, assim como o seu humor a que já nos habituou em filmes como «The Darjeeling Limited» (2007), «The Life Aquatic with Steve Zissou»(2004) ou «The Royal Tenenbaums»(2001).

No final, ficamos com a clara sensação de que o realismo tridimensional acaba por ser, na sociedade actual, demasiado valorizado retirando uma certa capacidade/responsabilidade de imaginação no espectador, na hora de ver o filme. A mesma capacidade que Wes Anderson soube cultivar num filme inteligente, que nos faz viajar sem termos de recorrer a qualquer tipo de óculos especiais, e que faz de «The Fantastic Mr. Fox» um autêntico gourmet dentro do seu género e, porque não admiti-lo, no cinema em geral.

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Nome: Pedro Martins

Número de Artigos: 47



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