Diz que o desaparecimento não deixa um vazio, mas que surgiu para preencher um espaço em branco no Algarve. Lélia Madeira foi a face mais visível do agora extinto Onda Culta, um projecto que “nasce da vontade de um grupo de amigos ligados à Comunicação Social de desmistificar um pouco a ideia generalizada de que o Algarve é um deserto cultural“.
Tarefa quase hercúlea, quando num pequeno exercício de memória nos damos conta que na capital da região passam em média por ano, na maior casa de cultura do Algarve, o Teatro das Figuras, pouco mais de 50 mil espectadores. Um número baixo. Muito baixo, que não toca no de habitantes da antiga Ossónoba. Mas o desafio parecia valer a pena e “o Onda Culta construiu-se com muito trabalho e gosto pela área. De facto, para começar, não é preciso muito mais do que isso. Aliás, ingenuamente, acreditámos que isso bastava e que o resto vinha por acréscimo“.
Talvez o “resto” a que Lélia se refere seja o carinho dos próprios agentes culturais da região, aqueles que diz, “não escrevem livros para ficarem na gaveta. A arte é para ser partilhada e por quantas mais pessoas melhor. Passa-se realmente muita coisa no Algarve, mas muitos dos acontecimentos não chegam aos órgãos de comunicação, porque a maioria das associações ou dos produtores dispõem de poucos recursos para os divulgar“.
Um “karma” que persegue a cultura em Portugal e que não raro coloca na sombra projectos interessantes e de valor. O Onda Culta não foi excepção e não fugiu à fúria dos cifrões, até porque “não tivemos apoios financeiros, apenas institucionais”. Mas os dias foram passando e “o Onda Culta era referenciado noutros sites e noutros blogues, sobretudo de associações ligadas à área, sempre que publicávamos um artigo que lhes interessasse“.
Lentamente aquele projecto inocente, que muitos viam como um para sempre eterno nascituro afirmava-se como ponto de encontro e “a média de visitantes do site até era bastante boa, apesar de ter sido pouco publicitado. (…) Fomos contactados para sermos um dos Media Partners da edição de 2009 do FIMA – Festival Internacional de Música do Algarve. Foi um grande sinal de reconhecimento do nosso trabalho“.
Chegava o reconhecimento, nem tarde nem cedo, porque na cultura as datas são o que menos importa e “não queríamos que o Onda Culta fosse uma mera agenda, porque agendas há muitas. Também pretendíamos que o site pudesse, de alguma forma, incentivar as pessoas a participarem mais activamente na vida cultural do Algarve. (…) Mas confesso que me indignou o facto de não obtermos qualquer resposta a algumas propostas de parceria, que colocámos a entidades culturais regionais. Ainda mais porque essas propostas não envolviam dinheiro”.
E é novamente ao dinheiro que chegamos. Dinheiro que o projecto não possuía desde a sua génese e que volvidos dois anos não tinha conseguido angariar. Esta é talvez a principal razão para que neste texto seja o pretérito a dominar o tempo verbal. A insustentabilidade económica tornava-se numa preocupação diária para aqueles que outrora sonhavam, ingénuos, com o abraço cultural de toda uma região e o desgaste da pequena equipa começava a ser notório, “a redacção tinha um número reduzido de jornalistas. Na fase final, era apenas eu que fazia o trabalho jornalístico e a gestão dos restantes conteúdos”. O Onda culta tinha-se tornado na própria arte que promovia, a arte de caminhar sobre um fino arame. Um arame que balouçava mais e mais e mesmo para quem mantinha a vontade de caminhar sobre ele, “só vontade não chega“.
Com os primeiros dias de 2010 chegou “uma decisão muito ponderada e difícil de tomar. Quando tudo isto começou, obviamente que a ideia era que tivesse continuidade, mas tal não foi possível, sobretudo por falta de dinheiro“.
Durante dois anos www.ondaculta.com tinha sido sinónimo de cultura na região mais a sul de Portugal, a 14 de Janeiro passou a ser apenas mais uma desinteressante página Web.” Não lhe chamaria vazio, porque o Onda Culta teve uma existência curta. Dois anos não são suficientes para deixar um vazio. Mas continuo a achar que seria importante haver um projecto como estes”.
Algo até aqui inédito na região que se propunha desmistificar, mas “onde ainda existe uma grande falta de visão relativamente ao potencial do sector cultural, que impede que projectos destes vinguem”.
Muros altos, tão altos que as escadas parecem não ter altura suficiente para dar o salto na região do bem conhecido Allgarve.


O Onda Culta era de facto um bom projeto e é pena que tenha desaparecido. Parabéns pelo seu artigo e por levantado esta questão. Espero sinceramente que ao Ilícito não aconteça o mesmo, já que, embora com contornos e conteúdos diferentes, anda também a navegar nas mesmas águas…
Boa noite Elisabete Rodrigues.
Em primeiro lugar agradeço-lhe o comentário. De facto o Onda Culta era um projecto que na sua essência tinha todo o sentido. Numa opinião particular devo dizer que lhe encontrava alguns defeitos, mas mais que isso virtudes. A virtude de fazer respirar a cultura no Algarve, aquela que não tem milhões nem clube de fãs. Infelizmente terminou e com ele quase tudo a que se propunha. Já quanto ao Ilícito, também eu, sendo colaborador, espero que o futuro lhe augure melhor sorte e sei que as pessoas envolvidas tudo farão para que tal aconteça.