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[Entrevista] Gijoe: Palavras de um Músico

Mais de 4 anos depois da mixtape «Música de Palavra», Gijoe volta à carga com um álbum em nome próprio.

Palavra de Músico

É uma mixtape, em formato, mas onde todos os instrumentais são produzidos por Sickonce (Gijoe). Junta MCs, cantores e DJs de todo o país, em 53 faixas com muitos samples e muito scratch. Podemos encontrar, entre outros, nomes como Nerve, Kristo, Dino, Perigo Público, Sagaz, Bob da Rage Sense, Mundo, emmy Curl, Royalistick, RealPunch, Reflect, Biex, Suarez, NelAssassin, La Dupla, Spell, Iniciado, A.M.O.R., Wuser e A.S2.

«Palavra de Músico» vem num CD único, em formato Mp3, com 53 faixas de participações, às quais se juntam as mesmas faixas em versão instrumental e bónus.

O ilícito esteve à conversa com Rafael Correia, mais conhecido no meio musical como DJ Gijoe. Um nome que é desde há alguns anos uma referência no panorama hip-hop nacional e que se encontra prestes a lançar um novo álbum. Aproveitámos por isso para descobrir um pouco mais sobre a pessoa por detrás dos pratos e sobre o seu mais recente projecto, «Palavra de Músico».

ilícito: Para quem não te conhece apresenta-nos o Gijoe, conta-nos como tudo começou e qual foi o teu percurso no mundo da música.

O «Gijoe» começou por ser um divertimento, sem nome, sem objectivos. Começou por ser apenas o tentar fazer, ou aprender tentando fazer, o que gostava de ouvir, e que muitas vezes não percebia como se construía, apesar de ter estudado música. As coisas foram ganhando “espaço” na minha vida, que se dividia entre a ambição de chegar a arquitecto, os patins e algum divertimento, chegando ao ponto de ter a produção e o DJing como parte significativa no meu dia-a-dia. De tal forma que o nome de guerra «Gijoe» passou a ser utilizado mais frequentemente e passou a significar que tinha algo mais sério para me agarrar. Isto por volta de 98, 99, 2000. Ainda assim,  só com o curso acabado, já em 2005, de volta ao Algarve e com muitas horas passadas à frente das máquinas é que lancei o primeiro registo com o intuito de mostrar um pouco do que se andava a fazer “pelos algarves”. A partir daí, foram projectos atrás de projectos. Juntei-me com pessoas de muito valor, trabalhei com a «Chocolate Bars», juntei-me à «Kimahera» e tornámo-nos na editora/estúdio que é hoje. Mas para mim foi o percurso mais natural que podia ter seguido.

ilícito: Primeiro veio a «Música de Palavra» e agora a «Palavra de Músico». Pretendes fazer desta mixtape uma afirmação pessoal como músico?

A principal diferença é mesmo o lado “musical”. Ou seja, na «Música de Palavra» todos os instrumentais eram de terceiros, de vinil, embora eu já produzisse, o objectivo foi o trabalho DJ/MC. Neste novo registo, «Palavra de Músico», introduzo a componente da produção, que já tinha mostrado nalguns trabalhos, mas aqui aparece em peso, em mais de 60 instrumentais. Volto a valorizar as participações, que são imensas, e o scratch, mas a produção foi a questão que deu a volta ao nome.

ilícito: Neste álbum consegues reunir vários nomes de peso do hip-hop nacional. Relacionas este facto a um maior respeito por parte da comunidade? Como foi produzir um álbum com pessoas de tantas regiões diferentes?

As participações foram muito naturais. Participou o pessoal com quem gostava e tive oportunidade de trabalhar, a maioria pessoal com quem já tinha trabalhado. Com alguns só houve oportunidade agora, mas sempre de uma forma natural e sempre por apreciar o trabalho deles. Portanto, se é por respeito, é por respeito que eu tenho por eles.

O que me perguntavas relaciona-se mais com o aceitar do convite por parte deles, mas isso tem mais a ver com já confiarem na qualidade do meu trabalho. Acho que é mais por aí. A questão da diversidade geográfica foi algo problemática, mas resolveu-se e, sempre que possível, tive os artistas a gravar na Kimahera, ou um DJ ou outro na minha casa mesmo. Tento sempre que possível tornar a cena mais pessoal fazendo o trabalho em conjunto e no momento.

ilícito: Olhando para o resultado final, qual foi a faixa que resultou melhor para ti? E qual achas que vai ter maior receptividade por parte do público em geral?

A questão da receptividade do público, supostamente, e se não me enganei muito (o que é possível), serão as faixas do single. Normalmente também são as que fartam mais rápido, mas como não dei a faixa completa, mas um mix de três partes de faixa, mesmo essas ainda têm mais para dar, na versão álbum. Normalmente o pessoal vai ouvir primeiro as que tem pessoal com mais nome, ou então pessoal “da zona”, mas este CD, visto ter tantas faixas, é um disco que deverá levar algum tempo a digerir e a descobrir todos os valores… Isso aconteceu comigo. Ao longo do processo [quase quatro anos] de realização do álbum, passei por muitas faixas preferidas, e espero que isso aconteça com os ouvintes! É sinal que houve tempo para ouvir o disco. Deram hipótese ao álbum, o que hoje em dia não acontece muito. Só se ouvem singles.

ilícito: Tal como na primeira mixtape, nota-se uma especial atenção com a imagem do álbum e tudo o que o envolve. Sentes-te na “obrigação” de oferecer algo mais a quem apoia os teus projectos?

Sim, sempre gostei muito de trabalhos com um bom conceito, especialmente quando isso se sinta a todos os níveis: design, packaging, site e fotografia.  A capa dá resposta a todo o conceito «Palavra de Músico», o desvendar das palavras que dão luz a toda a música feita por mim (ver vídeo). É um todo, e o mesmo acontece no site sickonce.com, que dia 8 de Março se transforma no meu site oficial, com muita informação e alguns bónus.

Gijoe

ilícito: Já referiste numa outra entrevista que uma das principais diferenças da tua anterior mixtape para esta é o facto de todos os beats serem teus. Qual é o tipo/estilo de música que mais te agrada “samplar”? Alguns artistas mais recorrentes?

Eu “samplo” tudo, mas evito “samplar” músicas que já advêm de produção com os mesmo métodos que eu. Há quem o faça, eu evito. “Samplo” muito de vinil antigo, gosto do digging, do prazer de estar no gira-discos e aparecer mesmo aquele som. Há artistas mais recorrentes, mas não sou constante, é por fases. Na altura do Duelo Mental e Último Acto andava muito a samplar Kate Bush, por exemplo.

ilícito: E como é que foi a atribuição dos mesmos aos artistas convidados? Foram “feitos à medida” ou destes-lhe uma lista de alternativas por onde escolher (à la carte)?

Relativamente à atribuição pelos artistas, foi um meio-termo. Fui criando uma lista e não houve nenhum artista que tivesse que ficar com o beat sem opção de escolha, mas enquanto produzia ia logo sentindo que neste beat ficava bem tal MC, e nalguns casos reduzia logo a lista de escolhas, encaminhando a escolha final para uma certa sonoridade que procurava com a participação.

ilícito: Numa altura em que se debate o futuro da distribuição e comercialização da música, optaste por um formato híbrido. Porque fizeste esta escolha em vez de lançares o álbum apenas em formato digital?

Eu tenho um problema único com o digital. Gosto demasiado de ter o Vinil/CD/DVD na mão para ficar satisfeito com o álbum, sacando, mesmo pagando. Num bom álbum chego a comprar a versão CD e Vinil só para ter o objecto físico. O mp3 foi mais por uma questão funcional. Queria muitas faixas mas não queria subir o preço do produto final e, actualmente, já vai havendo muita gente com leitores mp3 no carro, em casa, lê no PC, no leitor de dvd, passa para o leitor portátil… E para quem não tem, ouve no PC, escolhe as que gosta mais e grava num CD áudio que eu deixo. Se a policia perguntar, dizem que o autor autorizou a cópia de uma compilação a partir do CD original. Imprimam isto e andem com a folha no porta-luvas do carro.

ilícito: O Algarve é uma região onde o hip-hop sempre teve uma forte representação, mas no entanto não temos um artista de referência como o caso do centro (ex: Valete, Sam The Kid) ou o norte (ex: Mind Da Gap, Dealema). A que achas que isso se deve? O que achas que faz falta?

Não temos porque não estivemos centrais na altura em que esses artistas formaram nome. Havia aqui muito boa gente que podia ter chegado lá, mas o Algarve não é uma das capitais. Dá muito trabalho à imprensa vir cá entrevistar ou fazer a cobertura de um concerto…

Por outro lado, se calhar ainda bem que assim é. O hip-hop cá “sofre” de um “caseirismo” que não se reflecte na falta de qualidade, mas sim na falta de oportunidades, o que obriga os artistas a lutar o triplo e a desenvolver muito mais que os outros que estão na montra. Assim, quando reparam nos bons valores do Algarve é porque já não há nada a fazer… já estão num patamar acima!

ilícito: Como DJ passas música de outros artistas. Já te aconteceu ouvires outro DJ a passar música tua?

Já aconteceu, mas normalmente é malta conhecida. Aliás… já aconteceu uma vez que não (era conhecido), mas actualmente somos amigos! Ou seja, é muito fixe e provoca isso mesmo, que o inter-cambio musical entre DJs valorize o produto nacional ou internacional menos badalado, ganhando força. Eu farto-me de passar música nacional! E gosto!

ilícito: És ouvinte da tua música?

Sou, porque tenho de ser durante o processo, mas acabo por me fartar. Depois só volto a ouvir passado uns meses ou anos e acho piada, mas como estou sempre com projectos, quando um sai já eu ando a fazer outro, ou de pessoal que me rodeia, em que participo, então acabo por andar sempre a ouvir algo “meu”, mas que normalmente ainda não saiu… Estou sempre é a ouvir coisas de fora (nacional e internacional). Preciso de música, não sou muito adepto da teoria do “não ouço para não me influenciar”.

O SingleMix está disponível para download gratuito e mistura três faixas do álbum (Perigo Público, Dino e Nerve). «Palavra de Músico» estará à venda a 8 de Março e poderá ser adquirido nas lojas Fnac e SóHipHop. Para actualizações regulares basta visitar os sites Sickonce e Kimahera.

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