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Passatempo de velhas? Não! O tricô anda nas ruas!

Imagem do trabalho realizado por Magda Sayeg num autocarro na Cidade do México ©

Uma senhora de idade avançada sentada numa cadeira de balouçar. Nas mãos, duas agulhas sobredimensionadas deslizam, cruzam-se e viajam por entre os fios de lã, num movimento criativo de velocidade considerável, especialmente tendo em conta a idade da executante.

Podemos estar redondamente enganados, mas esta é a imagem geralmente associada a essa actividade milenar que é o tricô.

Culturalmente ultrapassada, longe dos passatempos tecnológicos dos mais jovens, a criação de cachecóis, camisolas, meias ou qualquer outro objecto de indumentária de lã pertence no século XXI às máquinas. Afinal de contas, nos dias que correm, quem quer perder tempo a fazer uma camisola de lã quando a pode obter numa qualquer loja de um centro comercial por um preço relativamente baixo?

Substituído pela produção em massa, o tricô viu a sua imagem de actividade de nicho ser ainda mais exacerbada, transparecendo a ideia de que, salvo as já referidas idosas nas cadeiras de balouço, mais ninguém se interessa por este passatempo.

Magda Sayeg a terminar mais um trabalho ©

Contrariando este preconceito, um conjunto de jovens criativas viu no tricô uma nova forma de expressão artística, criada para combater a apatia cinzenta das cidades e dos subúrbios, injectando um pouco de luz, cor e vida em objectos ou estruturas de outra forma inanimadas e rotineiras.

Neste conjunto de mentes construtivas, o nome que desde logo se destaca é o de Magda Sayed. Ponto de criação e epicentro de todo o movimento de yarnbombing, para esta texana de 36 anos, a paisagem que via a partir da montra da sua loja na cidade de Austin não lhe dava grandes motivos para sorrir. Saturada da “amálgama metalizada e cinzenta” da sua cidade, a artista decidiu “adicionar um pouco de cor, de calor e de vida” ao mundo que a rodeava, enxertando retalhos coloridos, de malha, em alguns postes e árvores diversas que se encontravam à entrada do seu estabelecimento, realizando de forma simples a primeira acção de yarnbombing.

E assim, aquilo que começou como um passatempo pessoal assumiu proporções inimagináveis para Sayed, que viu nascer todo um movimento global em torno desta expressão artística, através da criação espontânea de pólos independentes em várias cidades um pouco por todo o mundo. Movida no início por “motivos pessoais, porventura egoístas”, como Magda desabafou ao ilícito, o facto é que a primeira intervenção resultou, deixando a autora “bastante contente com o resultado da primeira peça”. O sucesso, esse, apanhou Magda de surpresa, dado que nem mesmo o feedback positivo recebido inicialmente fazia prever a evolução que viria a ter lugar. “Foi uma surpresa o facto de as pessoas gostarem daquilo que eu estava a fazer, o que me encorajou a criar mais peças”, acrescenta.

Mais um trabalho de Magda Sayeg, desta vez em Paris, com a Torre Eiffel ao fundo ©

Aquilo “que começou como um projecto a solo tornou-se entretanto em algo que mudou o rumo da minha vida”, confessa a criadora, que aponta o nascimento do grupo Knitta Please – um dos primeiros grupos a nível mundial dedicado a esta nova forma de intervenção urbana – como um ponto decisivo no crescimento do yarnbombing enquanto fenómeno global.

Nos últimos anos já tricotou em Paris, Nova Iorque, Londres e até na Grande Muralha da China, tendo deixado em todos estes lugares, muitas das vezes em elementos históricos, a sua marca, ou melhor, a marca do “knitting“. Seja uma estátua num parque londrino, um corrimão no Central Park de Nova Iorque ou um autocarro inteiro na Cidade do México, o certo é que a imaginação de Sayeg ainda não foi limitada fisicamente, permitindo-lhe levar além fronteiras esta variante de arte urbana que promete lutar com o muitas vezes banal graffiti ou o politizado stencil pela atenção pública. “Tenho tido a sorte de poder dizer que a reacção tem sido toda positiva, ou pelo menos inquisitiva. Nunca ignorada”, diz Magda ao ilícito.

Trabalho realizado pelas ©Knit the City

“No yarnbombing“, acrescenta, “estou a pegar em algo que é familiar, mesmo nostálgico, e a aplicá-lo a ambientes urbano, alterando consequentemente o seu contexto”, refere a criadora do movimento Knitta Please, que considera que uma justificação possível para a crescente adesão ao yarnbombing pode passar pelo simples facto de esta ser uma variante ao graffiti, “utilizando métodos alternativos à lata de tinta”. “Estas novas abordagens que não requerem uma remoção através de meios cáusticos e corrosivos parecem ser publicamente aceitáveis pela sociedade e autoridades”, assinala Magda Sayeg, ressalvando no entanto que “algumas pessoas vêm-no como embelezamento, outras como algo apóstata (ou renegado)”.

O futuro de Magda, esse irá passar por cada vez mais e maiores projectos ligados ao tricô: “os meus projectos têm vindo a tornar-se cada vez maiores, quer em tamanho, quer em número. Actualmente tenho planos para realizar projectos em Roma, Londres, Rússia e Estónia, sendo que estou também a escrever um livro”. Para além da aposta em acções de rua e na divulgação desta expressão artística, a texana parece querer seguir a via da diversificação: “tenho também realizado algum design de produtos e gostei de o fazer. Criei designs para “iPod covers” que podem ser vistos no website Uncommon“, termina publicitando.

O yarnbombing, esse “já é uma actividade global”, assinala, apontando para a “atenção mediática que tenho recebido, assim como pela base de fãs que tenho e pelos emails que tenho recebido” como principal prova da cada vez maior dimensão e diversidade desse polvo de malha que promete engolir a sobriedade, o cinzento e o metal amorfo das cidades do século XXI.

As cooperativas de tricô tomam conta das cidades

Logotipo do grupo de yarnstorming londrino «Knitte the city"

Logótipo das ©Knit the City

Magda Sayeg pode ter sido uma das primeiras, mas não é certamente a única pessoa interessada em dar um toque de vida e vitalidade às cidades. Grupos como as Knit the City, Stich and Bitch, Purl Interrupted ou Knitted Landscape, são prova disso.

Influenciadas pelo toque colorido de Magda Sayed, um grupo de mulheres londrinas decidiu igualmente dedicar-se ao embelezamento da cidade, aplicando as técnicas de yarnbombing – ou, como as próprias fizeram questão de corrigir, yarnstorming – previamente definidas pela messias texana do novo tricô, escolhendo a designação Knit the City (Tricotar a Cidade, em português).

“Nós, no Knit the City fazemos “yarnstorms” e não “yarnbombs“, corrigem, justificando o facto no sentido de se afastarem “de algum tipo de associações terroristas, sendo uma designação de disposição bem mais inofensiva [yarnstorming]“. “Vivemos numa cidade onde a palavra bomba é bem capaz de não ser a mais popular para se brincar, mesmo que envolva tricô. Por outro lado, todos gostamos de tempestades”, acrescentam, com um apreciável toque de ironia.

Aliás, ironia e sarcasmo é o que não falta a este grupo de sete mulheres que, questionadas sobre as motivações que conduziram à criação do grupo, não se inibem de extrapolar até universos alternativos:

Um novelo de lã radioactiva gigante emergiu do submundo e atacou Londres, criando uma rede em torno da cidade. A sorte foi irmos a passar justamente a caminho da nossa própria missão de yarnstorming. A combinação dos nossos poderes contribuiu para a destruição deste ser à base de fibras.

Pouco tempo depois, uma figura misteriosa emergiu numa estação de metro abandonada em Londres e encaminhou-nos para aquilo que se viria a tornar o bunker do Knit the City.

O resto da história foi apagada das nossas memórias, embora surja algumas vezes em flashbacks desfocados. Acreditamos que envolveu muitos bolos, diferentes tipos de cidra, algumas montagens destruidoras da alma, e claro, lã.

Trabalho realizado pelo grupo KTC numa cabine Telefónica londrina

Trabalho realizado pelas ©Knit the City

Apesar de ser constituído apenas por mulheres – Deadly Knitshade, The Purple Purler, Shorn-a the Dead, The Bluestocking Stitcher, Lady Loop, The Fastener and Knitting Ninja, são os seus heterónimos -, o grupo Knit the City não impõe qualquer barreira à entrada de elementos do sexo masculino, desde “que estejam ao nível dos [seus] padrões de sneaky stitching“, fazendo transparecer a ideia de que esta actividade continua ainda a ser muito conotada ao sexo feminino.

Questionadas sobre o tipo de reacção de outros artistas provenientes de artes urbanas mais tradicionais ao seu trabalho, são peremptórias em afirmar que esta tem sido “ampla, do respeito ao descrédito, da aceitação relutante ao horror”, lembrando que “aqueles que não conseguem ver a nossa arte agora, chegarão lá eventualmente”.

“Somos todos iguais aos olhos dos deuses do graffiti“, concluem as rebeldes do tricô em terras de Sua Majestade.

- Galeria de fotografia da Knitta Please.

- Site com diversos exemplares de acções de Yarnbombing.

-Entrevista vídeo com Magda Sayeg feita pela Theadbanger.

-Entrevista a Magda Sayeg pela UnseenTV.

- Reportagem feita durante a acção realizada num autocarro na Cidade do México.

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