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Festival Med 2010: Dia 1 – Porque os festivais não se medem aos palcos!

Vieux Farka Touré @ MED 2010 10

Vieux Farka Touré @ MED 2010

Podia ser apenas mais um festival de música? Podia, mas o termo seria redutor. A verdade é que nos últimos 7 anos o Festival MED quebrou as barreiras do tradicional e transformou-se num evento multidisciplinar onde a oferta musical, teatral, gastronómica, artesanal e artística se combinam, oferecendo ao visitante um evento cultural completo, onde todos os sentidos são estimulados.

O primeiro dia da 7ª Edição facilmente deixou antever que, não só não se perderam as qualidades dos anos anteriores, como se melhorou a oferta. Depois de algumas semanas de alguma confusão meteorológica, este inicio de verão proporcionou as condições ideais para que se verificasse uma pequena enchente de pessoas no recinto do festival, tarefa nada fácil, uma vez que os dias de semana são por norma dias menos atractivos para os visitantes. No entanto, uma oferta musical bem forte funcionou como o isco perfeito para levar os visitantes ao primeiro dia do MED 2010.

À entrada facilmente se percebe que o conceito por detrás do festival – dar a conhecer o que de melhor se faz na World Music – ganha vida, não só nos cinco palcos que recebem alguns dos melhores artistas ligados às várias sonoridades do mundo, mas também no público que circula por entre as estreitas ruas de Loulé, composto por um sem número de nacionalidades. Uma vez transpostas as portas que dão acesso ao recinto, porém, nenhum desses conceitos mundanos faz sentido e todos os presentes se deixam levar pelo propósito que os levou ali: uma noite de diversão, preenchida por boa comida e ao som de boa música.

Embora tenhamos admitido desde logo que a música não é o único atractivo deste evento, a verdade é que funciona como o fio condutor do mesmo, pelo que é impossível falar do MED sem referir os artistas que durante os 4 dias de festival passam pelos palcos.

Zeca Medeiros @ MED 2010 05

Zeca Medeiros no Festival MED

Para a equipa do ilícito a jornada musical começou ao som de Zeca Medeiros, no palco do Castelo. Natural dos Açores, já há muito tempo este artista de timbre grave e músicas a fazer recordar os idos tempos em que a música de intervenção era rainha e senhora se tornou numa referência do panorama musical nacional. O espectáculo intimista que aqui apresentou, mostrou Zeca Medeiros não apenas como um músico, mas também como o Homem que vive aquilo que canta.

Não muito longe do Palco Castelo, num outro palco – o Cerca – Amparo Sanchéz preparava-se para incendiar as almas dos presentes, quer com as suas músicas que embalavam os corações mais solitários, como com os seus hinos de festa que obrigavam os presentes a começar a mover-se, não porque estivesse frio, mas porque o ritmo contagiante assim o exigia. A verdade é que Amparo Sanchéz não é propriamente uma novata nestas lides musicais. Depois de mais de uma década com o grupo «Amparanoia», a cantora espanhola apresenta-se agora a solo num espectáculo mais pessoal, acompanhada por uma banda bastante competente e rica musicalmente. Não fugindo às raízes latinas, Amparo percorre um reportório bem diverso, mas sempre apelativo ao ouvinte, provando errada a velha máxima que diz que “de Espanha, nem bons ventos, nem casamentos”!

Mais uma viagem pelas ruas de Loulé, totalmente vestidas  a rigor e complementadas pelas diversas bancas de artesanato e de comida, chegamos ao palco Matriz onde se esperava um dos nomes grandes deste primeiro dia de festival.

Femi Kuti @ MED 2010 11

Femi Kuti @ MED 2010

Após algumas brincadeiras com o fogo por parte de um dos diversos grupos de animação que percorrem o espaço, Femi Kutti & The Positive Force foram finalmente anunciados. A entrada em palco fez-se primeiro pelos membros da banda, seguidos de um trio de dançarinas que fariam também o papel de back vocals, tudo muito bem coreografado e com o objectivo de ir preparando o público para receber Femi Kutti, o homem que todos queriam ver no momento. A verdade é que Kutti carrega consigo o fardo pesado da sua ascendência: filho de Fela Kuti, pioneiro e um dos nomes maiores do afrobeat, este músico nigeriano pegou no legado do pai acrescentando-lhe nuances de soul, jazz, hip-hop, reggae ou até de outros estilos oriundos de África, criando assim uma identidade própria e bastante rica. O concerto no MED foi uma mostra plena dessa identidade, presenteando os presentes com um espectáculo alegre, ainda que forte, transportando-os para uma África longínqua onde o Homem ainda vive em paz consigo próprio. E mesmo apesar das letras socialmente conscientes, Femi Kutti & The Positive Force mostram que tristezas não pagam dividas e que é possível lutar ao ritmo de boa música.

Macacos do Chinês @ MED 2010 06

Macacos do Chinês @ MED 2010 (Skillaz e Espectro Cliché)

Passando dos sons africanos para os sons portugueses (ou pelo menos em parte) e de volta ao Castelo, os Macacos do Chinês subiram ao palco para gáudio do público mais jovem que se encontrava no recinto. Numa fusão de dubstep com hip-hop e ritmos muito característicos da música tradicional portuguesa, este grupo português mostrou a sua diversidade abrindo ainda espaço para alguns riffs de guitarra mais “rockeiros”, numa mescla musical que fez com que os Macacos do Chinês tenham saído do anonimato na Reboleira, para o “estrelato” a nível nacional. Aproveitando o facto de um dos elementos do colectivo estar a jogar em casa, os MDC mostraram-se merecedores de todo o apoio que tiveram com uma exibição forte e coesa, dando até a conhecer um som novo que irá constar de um trabalho a ser lançado no EP que a banda tem agendado para um futuro próximo.

Findos que estavam os restantes espectáculos, o público dirigiu-se em massa até junto do Palco Cerca para receber Vieux Farka Touré. Podemos dizer que esta primeira noite do MED era uma noite dedicada à descendência de “velhas glórias”, uma vez que também Vieux Farka Touré carrega consigo o fardo do nome: filho de Ali Farka Touré, génio dos blues malianos, viu mesmo ser-lhe negado o apoio por parte do pai numa primeira fase da sua carreira. No entanto, a força de vontade e talento inato depressa convenceram o seu pai que acabou, não só por lhe dar a tão desejada bênção, como por colaborar com ele.As expectativas só poderiam ser elevadas e, talvez por isso, o início do concerto tenha parecido demasiado morno. No entanto, aquele que é considerado por alguns como um dos melhores guitarristas da actualidade, foi gradualmente fazendo valer essa sua fama no palco do MED. O concerto que, durou cerca de duas horas, foi aquecendo  terminando em autêntica apoteose junto de um público que pedia por mais. Por mais redutor que possa parecer defenir o estilo musical de  de Vieux, o seu concerto alternou entre os blues africanos, rock, reggae, dub ou até mesmo funk. Mas de que nos vale catalogar a boa música, se no fim é a sua qualidade que interessa? E diga-se, a música de Vieux Farka Touré era boa!

Fechava-se assim em grande um dia de MED, o primeiro de 2010, com a promessa de que no dia seguinte haverá mais e de que o ilícito estará presente.

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Nome: Mário Cunha

Número de Artigos: 4


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