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Festival Med 2010: Dia 2 – A Maratona de Goran e a apoteóse de King Khan

Mazgani @ MED 2010

Mazgani, numa das grandes actuações neste 2º dia de Festival MED em Loulé

Com o calor definitivamente de volta a terras algarvias, o segundo dia do Festival MED 2010 tinha todos os ingredientes para ser, à semelhança do primeiro, um sucesso. Não muito depois das 19 horas os primeiros acordes musicais fizeram-se ouvir pelo recinto, dando nova vida às ruas, tantas vezes moribundas, de Loulé. Porém, não obstante a qualidade de todas as bandas apresentadas, há que fazer escolhas e desta vez escolheu-se fazer uma visita pelo recinto, experienciando assim o MED em toda a sua dimensão.

As Ruas no Festival MED 2010

Uma das ruelas no festival MED

Por estas alturas as ruas são fechadas, oferecendo assim ao visitante a possibilidade de deambular um pouco mais à vontade pelo espaço MED (pelo menos durante as primeiras horas de cada dia, uma vez que a noite costuma trazer consigo enchentes de pessoas que chegam a transformar numa hercúlea tarefa a deslocação entre palcos). Junto ás casas antigas, são montadas pequenas bancas de artesanato e comes e bebes. Numa cacofonia de cores, cheiros e sabores, o visitante do MED tem à sua disposição uma variada oferta: dos penteados punk às habituais tranças e terérés, das orelhas de elfo ao artesanato oriundo de África, dos pratos mais compostos à culinária do médio-oriente, servida num ambiente que faz lembrar o imaginário dos livros das Mil e Uma Noites. No campo gastronómico é ainda de salientar a presença do Chef Chakall – cara conhecida da televisão e presença habitual no MED – Chef Bernardo Sousa Coutinho e por fim o Chef Jonnie Pratt, representando três abordagens distintas da comida mediterrânica.

Mas nem tudo é feito a pensar nos mais velhos. Até as crianças têm um espaço próprio, o MED KIDS, onde uma equipa de monitores recebe os mais novos para os distrair permitindo  assim que os pais possam descobrir o festival com maior liberdade.

E não se surpreenda também se se deparar com demónios de pernas longas à solta ou for abordado por uma senhora em busca de alguém que já não anda entre nós. Não é que hajam médiums à solta no recinto (se bem que há pelo menos uma taróloga, sempre com um cliente à frente a querer saber o que o futuro lhe reserva), mas a animação de rua é uma componente muito importante no festival.

E as artes não ficam esquecidas, podendo visitar uma das exposições que o MED tem para oferecer. As obras de José de Guimarães, as fotografias de Pedro Barros ou as instalações de rua do projecto Combi-nações são o principal atractivo nesta vertente.

Percorrido de lés a lés o recinto, era tempo para voltar aos palcos que começavam a ser preenchidos por alguns dos nomes maiores da World Music.

Por volta das 21:30 o número de pessoas no Palco Castelo, para assistir ao concerto de Mazgani,  deixava  antever a enchente que se viria a verificar nesse dia. Depois de terem subido ao palco os músicos que acompanham Magzani, faltando apenas o próprio para compor o ramalhete. A espera, como de costume, fazia-se virada para o palco quando de entre a multidão se ouve alguém a gritar com um altifalante. Não, não eram os Homens da Luta com a sua reacção, mas sim o artista que nos havia levado àquele palco! Já em cima das tábuas, Magzani largou o altifalante e serviu-se do microfone para fazer ecoar a sua voz pelo recinto. E que voz … Não bastasse tal facto, Magzani apresentou-se ainda como um autêntico mestre de cerimónias, conseguindo transmitir na perfeição a adrenalina presente em algumas das suas músicas mais “rockeiras”. Nem os momentos mortos, resultado de alguns problemas técnicos, fizeram esmorecer o público que estava ali de corpo e alma. Mesmo nos outros momentos, mais nostálgicos, a voz e melodia do cantor transportavam-nos para uma daquelas imagens em sépia, onde estão retratados momentos de pessoas que já foram felizes. Ao ver o seu concerto percebe-se facilmente o porquê de Mazgani ser considerada, por alguma imprensa especializada, como um dos novos valores da Europa. Ao ouvir as suas músicas tudo parece bater certo.

As Ruas no Festival MED 2010

Actuações de rua no Festival MED 2010

Mas como o MED é festa ininterrupta, estava na hora de passar ao próximo artista. No palco Cerca os Cacique’97 preparavam-se para apresentar a sua música: uma mescla entre as sonoridades do Afrobeat e os sons mais tradicionais das terras lusas. O som dos Cacique é desta forma um reflexo da própria banda, composta por elementos moçambicanos e portugueses, uma celebração da multiculturalidade tão presente em Lisboa, cidade que proporcionou a reunião da banda. Em concerto esta mesma mescla parece não funcionar assim tão bem. Os ritmos quentes não foram suficientes para aquecer um público que nunca passou de morno, tanto em resposta como em número. Talvez por isso a banda não tenha sentido o entusiasmo necessário para proporcionar um grande concerto, mas a verdade é que, apesar de musicalmente muito bom, parecia faltar ali alguma garra, essencial para projectar o concerto para a grande espectáculo.

Se em relação ao concerto anterior a escassez de público era notória, junto ao palco Matriz a história era bem diferente. Era então tempo para receber um dos nomes mais sonantes deste segundo dia de MED. Goran Bregovic and His Wedding & Funeral Band subia ao palco por volta das 22:45. A banda deste optou também por uma entrada diferente em palco, facto que, não tivesse sido a anterior façanha de Magzani, talvez tivesse parecido melhor ideia: eles deslocaram-se por entre a multidão que os esperava até ao palco, ao invés de entrarem, como de costume, pela lateral do mesmo. Mas falemos então de Goran: este músico bósnio, actualmente a residir na Sérvia e com um passado ligado ao rock, trouxe os ritmos tradicionais da Europa do leste até Loulé. Com um estilo muito próprio e após colaborar com Kusturika em 3 filmes, este músico seguiu o seu próprio caminho desbravando terreno e dando a conhecer ao mundo os sons de uma Europa que muitos associam apenas à dureza dos regimes comunistas. Embora tenha sido o responsável pelas bandas sonoras de outros filmes que não de Emir Kusturika, Goran é mais do que um autor de músicas para filmes, sendo reconhecido como um dos mais marcantes músicos e compositores da actualidade. E se este currículo muito prometia, a verdade é que Goran não defraudou as expectativas dos presentes e durante todo o seu concerto – e acreditem que foi muito – o público reagiu com grande entusiasmo. A sintonia entre artista e público proporcionou um dos melhores momentos da noite que deixaram convencidos mesmo os mais cépticos em relação ao génio de Goran. Nota especial para o momento que ocorreu depois do concerto em que o músico recebeu o Prémio Songlines para Melhor Artista de 2010.

Goran @ MED 2010

Goran Bregovic @ Festival MED 2010

De volta ao Palco do Castelo, a banda em cena sofria com a falta de público provocada pelo concerto de Goran. No entanto, não pareceu que tal facto intimidasse os Andersen Molière, ainda assim conseguiram proporcionar aos presentes um bom espectáculo. Redescobrindo o tom burlesco de outros tempos e apelando à memória das lides teatrais satíricas de Molière, este grupo oriundo de Lisboa apresentou-se em palco com uma produção visual bem cuidada, com personagens bem definidas e que pareciam saídas de um filme antigo. E parecem ser essas mesmas personagens que encontram expressão nas músicas do colectivo, retratando emoções e sentimentos que embora banais,ganham nova cor pela forma como são interpretadas por Molière. Sem dúvida, uma banda que merece mais atenção por parte de todos os ouvintes de boa música cantada em português.

King Khan @ MED 2010

King Khan @ Festival MED 2010

Não muito longe dali, no palco Cerca, à hora prevista para o inicio do concerto que se seguia, era ainda pequena a malha humana que se encontrava no local. Por se encontrar ainda muita gente no concerto de Goran a actuação de King Khan & The Shrines foi adiada durante cerca de meia hora. À entrada dos músicos, ouvem-se os primeiros acordes e a multidão, que entretanto se havia concentrado em maior número, dava mostras de alguma ansiedade para estar cara a cara com King.  Eis então que, com o seu habitual visual extravagante, King Khan entra em palco e dá inicio a um concerto recheado de cor, luz, música e principalmente feeling!  Musicalmente Khan traz imediatamente à memória nomes como James Brown, Sun Ra e até mesmo Little Richard. Porém, não se fica por ai! Os seus concertos são uma autêntica biblioteca de géneros musicais, deambulando pelo jazz, funk, soul,  rock psicadélico e  punk, entre outros que, mais ou menos diluídos, constam do inventário.

Fechava-se assim o segundo dia da VII edição do Festival Med, numa apoteose musical que certamente não deixou ninguém indiferente. Caso para dizer «venham mais duas noites destas!».

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Nome: Mário Cunha

Número de Artigos: 4


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