O último dia do Festival MED traz sempre sentimentos ambíguos, e não me estou a referir às dores nas pernas, trata-se sim de um misto de tristeza por estar a terminar, satisfação pelos dias bem passados e ansiedade por aproveitar o que resta ao máximo. E todos os concertos prometiam fornecer o catalisador necessário para atingir esse êxtase.
Começou cedo a agitação pelas ruas do festival, uma vez que quem esteve presente no último dia da edição anterior ainda tinha na memória a lotação esgotada, a dificuldade em arranjar estacionamento e em percorrer o recinto. Assim se amontoaram vários grupos junto dos comes e bebes, numa tentativa de acalmar o estômago o mais rapidamente possível, uma vez que o espectáculo não espera.

B Fachada, um dos membros dos Diabos na Cruz, ao vivo no Festival MED
Pouco depois das 21h00 o Palco Castelo já tinha uma moldura humana bem constituída, ninguém parecia querer perder o concerto de Diabo na Cruz. A banda de Jorge Cruz, João Gil, B Fachada, Bernardo Barata e João Pinheiro tem vindo a crescer em mediatismo e reconhecimento, não era difícil adivinhar a casa cheia que os esperava quando o concerto se iniciou. O punk-funk ou rock-folk que mistura música popular e guitarradas colocou grande parte do público aos pulos, ao mesmo tempo que se ouvia em uníssono o refrão de “Tão lindo” e “Dona Ligeirinha”. Não é nada fácil ver isto acontecer num festival como o MED, pensei eu, onde a maioria dos participantes vem pelo programa no seu todo e/ou à procura do desconhecido, neste caso havia mesmo uma base de fãs consolidada. E os Diabo na Cruz responderam da melhor forma, num palco demasiado pequeno para tanto talento.

Virgem Suta @ Festival MED
Ao mesmo tempo que decorria o concerto no Palco Castelo, subia René Aubry ao Palco Matriz. Compositor e multi-instrumentista de incomensurável talento, criou uma atmosfera mágica com uma banda sonora que incorporou na perfeição a noite quente oferecida aos espectadores presentes. Público este que soube estar à altura do mestre das “canções sem palavras”, mostrando-se apreciador e respeitador do género. Fica por isso uma sugestão para uma próxima edição do festival, porque não trazer Yann Tiersen?
Pelas 22h45 o primeiro concerto no Palco Cerca esteve a cargo dos alentejanos Virgem Suta, a segunda banda da noite com cheiro a folclore. Assumem as suas raízes com muito orgulho e misturam-nas com letras de composição bastante cuidada, dando origem a alguma da melhor música que se faz por cá actualmente. Temas como “Tomo Conta Desta Tua Casa”, “Linhas Cruzadas”, “Ressaca” e “Dança de Balcão” fizeram as delícias dos presentes.
Era no entanto altura de rumar ao Castelo, porque o MED não pára e o concerto de Orelha Negra tinha arranque marcado para as 23h30. Tratou-se no entanto de um arranque os soluços, devido a alguns problemas técnicos ao nível do som. Nada de preocupante para o muito público que abanou o pescoço com a explosão instrumental que a banda proporcionou. Muito funk, soul, groove, samples e sobretudo muita diversão por parte de artistas que fazem aquilo que mais gostam, todos eles deslocados dos seus projectos originais, embriagados nos seus alter egos.

Cruz e Mira Profissional ao serviço dos Orelha Negra
Entretanto, Mercan Dede & The Secret Tribe trouxeram ao festival uma fusão de géneros mundiais de tradição turca, com coreografias bastante exóticas, como é o caso da dança circular dos dervixes. Mais poderia ser dito, mas findado o concerto de Orelha Negra a equipa do ilícito deslocou-se para o Palco Cerca, onde os Boom Pam ofereciam à plateia um original rock mediterrânico. Esta banda israelita faz música com apenas três instrumentos: uma tuba, uma guitarra eléctrica e uma bateria. A esses instrumentos juntam o carisma de um guitarrista cabeludo e um baterista de boxers e máscara de wrestling mexicano!

Baterista dos Mercan Dede & The Secret Tribe
Foi no Palco Castelo que se fez a despedida do festival, ao som do DJ Set de Clube Conguito, onde foi possível ouvir de tudo um pouco, sempre com um condimento afro, pela madrugada dentro.
O MED esteve mais uma vez em grande nesta sua VII edição. Com o alargamento do recinto, um programa extraordinário e para todos os gostos, este ano com uma forte aposta (de louvar) na nova música portuguesa, reforça assim a posição de referência nos festivais de Verão nacionais.

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