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«Um Funeral à Chuva»: O (re)nascimento do cinema independente português?

Não é fácil criar uma longa-metragem em Portugal. Pelo menos essa é a ideia com que ficam os espectadores e quem está de fora de todo o processo criativo e burocracia envolvendo o mundo cinematográfico português, se é que isso existe.

Um dos principais entraves passará acima de tudo pela dificuldade em angariar os fundos necessários para a produção do filme. Ora num país em que crise é a palavra de ordem há uma década, torna-se óbvio que o cinema nacional depende cada vez mais do Estado.

A malfadada subsídio-dependência, tão criticável como inevitável, é assim o caminho a seguir pela maioria dos produtores, realizadores e argumentistas que pretendam transportar a sua visão do papel para a tela.

Neste caso, os responsáveis por «Um Funeral à Chuva», filme independente que estreia esta quinta-feira um pouco por todo o país, tentaram obter apoio financeiro por parte do FICA (Fundo de Investimento do Cinema e Audiovisual). Bateram com o nariz na porta, é certo, mas ao contrário do que muitos fariam, não desistiram, persistindo com a intenção de criar a sua longa-metragem.

Assim, ao longo de qualquer coisa como quatro anos foram pouco a pouco, passo a passo erguendo uma estrutura que lhes permitisse filmar a história de um grupo de ex-estudantes universitários que são reunidos muitos anos depois pela morte de João, um dos seus amigos.

Por portas e travessas, mas acima de tudo por persistência, mestria e dedicação, «Um Funeral à Chuva» vê finalmente a luz do dia. No seu elenco encontram-se diversas figuras reconhecíveis pelos portugueses, como Alexandre da Silva, Hugo Tavares, Pedro Diogo, Adelaide João, Sandra Santos e Pedro Górgia, entre outros, numa película em que a tão portuguesa saudade é ponto assente.

Para assinalar a estreia deste projecto, o ilícito falou com Telmo Martins, produtor e realizador de «Um Funeral à Chuva»:

ilícito: Esta é a tua longa-metragem de estreia, depois de algumas curtas. Como foi a transição para um projecto de dimensões e quais as principais dificuldades que encontraste ao longo da produção?

Telmo Martins: Obviamente que todas as dificuldades que se encontram ao fazer uma curta são amplificadas quando se passa para uma longa-metragem. Mas, quando existe determinação, crença e trabalho árduo, tudo se ultrapassa, mesmo o pouco de tempo disponível para rodagem e a escassez de recursos.

ilícito: O plot point presente no filme é utilizado diversas vezes no cinema norte-americano, não estando no entanto muito presente no cinema português, o que é estranho, especialmente se tivermos em conta a ligação dos portugueses à saudade e à revisitação do passado. Até que ponto é a saudade um motor da acção em «Um Funeral à Chuva», e de que forma se manifesta?

TM: A saudade é um ponto importante. A saudade pelo João e a saudade por quem eram, antes das máscaras que a sociedade os levou a colocar. É essa saudade que leva os personagens a revisitar quem eram, a forte relação de amizade que os unia, e no que, eventualmente, se tornaram.
Todos nós, muito provavelmente, já passámos por situações semelhantes. Todos nós já olhámos para trás e relembrámos momentos únicos com um sorriso nostálgico.

ilícito: Visualmente, o filme parece transparecer uma sensibilidade algo distinta em relação ao cinema que é criado geralmente por autores portugueses. Trata-se de uma decisão consciente ou apenas o subproduto do trabalho de uma equipa com ideias novas e capacidade para as por em prática?

TM: É uma decisão consciente que, obviamente, é fruto do trabalho da equipa, das suas ideias e da sua capacidade. Resulta de muito trabalho de pesquisa e análise de diversos filmes, especialmente a nível de imagem e de fotografia.

ilícito: Um dos temas incontornáveis do filme parece ser o ambiente académico estudantil, no caso, o da Universidade da Beira Interior. Tendo estudado nessa universidade de que maneira é que as experiências vividas te sensibilizaram/influenciaram durante a realização do filme?

TM: O filme não é autobiográfico, mas obviamente contém sentimentos, memórias e situações que me marcaram, e que acabaram por influenciar um pouco a realização. Afinal, o período académico é uma etapa muito especial e única, que é impossível esquecer.

ilícito: Terminado o processo de rodagem e edição, «Um Funeral à Chuva» chega finalmente às salas de cinema do país. Que expectativas tens em relação à aceitação do filme pelos espectadores?

TM: Tenho consciência que é impossível agradar a todos. Nenhuma obra que se sujeita à opinião do público o consegue. No entanto, estou convicto que a grande maioria dos espectadores irá sair satisfeito da sala de cinema. Um Funeral à Chuva fala de amizade e todas as pessoas se identificam nesse tema. O filme irá fazê-las rir nuns momentos e, talvez, também emocionarem-se noutros. No fim, estou certo que darão o seu tempo no cinema por bem empregue e, espero eu, o recomendarão a todos os amigos.

ilícito: Tendo em conta as limitações de orçamento, quanto da ideia e conceito original do filme vão os espectadores poder ver a partir desta quinta-feira no grande ecrã. Até que ponto estás satisfeito com o produto final?

TM: Apesar das limitações orçamentais, a ideia e o conceito base encontram-se no filme. Claro que, com outras condições, poderiam ter sido feitos mais alguns planos, por exemplo, mas, na generalidade, penso que foi produzida uma obra de qualidade e estou bastante satisfeito com o resultado final.

ilícito: Uma das ideias que passou nas primeiras notícias sobre este filme deu o ênfase à ideia de que uma longa-metragem “que podia custar um milhão de euros, foi feita sem dinheiro”. Tendo consciência de que dificilmente se cria uma longa-metragem sem custos, de onde e como surgiu o financiamento que permitiu a filmagem de «Um Funeral à Chuva»?

TM: Como não obtivemos qualquer subsídio das entidades competentes, foi necessário recorrer a outra solução. Só foi possível avançar devido ao investimento da produtora, Lobby Productions, da qual sou sócio, ao apoio logístico de vários parceiros e ao empenho de amigos que acreditaram no projecto.

ilícito: Regra geral, sentiste por parte dos actores e equipa técnica uma abertura a este tipo de modelo de financiamento? Esta é uma opção passível de ser repetida?

TM: Sim, senti. Devido à forma como foi produzido, o filme passou a pertencer a todos, actores e equipa técnica. Foi interessante observar a forma como acreditaram e se empenharam na produção, que davam o máximo e que consideravam o projecto como sendo o seu projecto.
Esta opção até poderá ser repetida. O que é necessário é encontrar pessoas e parceiros que acreditem no que ser quer alcançar e estejam dispostas a trabalhar arduamente e com paixão para o alcançar. Não digo que todas as pessoas estejam dispostas a isto. Afinal, nada está garantido. É duro, mas é possível.

ilícito: Como se constituiu o grupo de protagonistas do filme?

TM: Foram efectuados contactos directos, através dos quais apresentámos o projecto. Os protagonistas mostraram-se interessados e aceitaram fazer parte do elenco.

ilícito: Os portugueses vão poder encontrar o filme em salas de cinema por todo o país ou será este um lançamento restrito?

TM: O filme estreará em 20 salas de cinema, por quase todo o país. E digo quase porque o filme necessita de ser exibido numa sala equipada com um sistema de projecção digital. Este facto ainda condiciona um pouco a sua distribuição. Existem alguns pontos do país onde queríamos estrear o filme e, tecnicamente, não o podemos fazer. Posso dizer que, para além de várias salas na Grande Lisboa e no Grande Porto, o filme estará também, entre outros, em Braga, Guimarães, Aveiro, Coimbra, Viseu, Covilhã, Guarda, Vila Real. A lista de salas específicas pode ser encontrada no website oficial do filme, www.umfuneralachuva.com.

ilícito: Terminada a apresentação nas salas de cinema, já têm prevista a distribuição em dvd e nos serviços on-demand do cabo?

TM: Essa faceta da distribuição também está prevista e será feita a seu tempo. A ZON Lusomundo tem direitos sobre o filme, pelo que é uma decisão de ambas as partes. No entanto, e como qualquer bom filme, deve ser visto no cinema. É aí que as pessoas vão ter a melhor experiência.

ilícito: Ao longo de quanto tempo se prolongou a filmagem e quais foram os principais locais visitados pela produção?

TM: A filmagem decorreu ao longo de um mês na região da Serra da Estrela, sobretudo na cidade da Covilhã.

ilícito: «Um Funeral à Chuva» congrega uma série de actores conhecidos do público português. Que tipo de impacto poderá ter este factor na aceitação do filme por parte do público?

TM: Obviamente que, para algumas pessoas, poderá facilitar uma primeira abordagem ao filme. No entanto, o que acabará por prevalecer será sempre a sua capacidade, o seu trabalho no filme, a sua adequação aos personagens e o resultado final de um todo.

ilícito: Em termos de número total de visionamentos do filme, existe algum tipo de meta estipulada pelas partes envolvidas para considerá-lo um sucesso ou essa questão não está presente na equação?

TM: Um Funeral à Chuva já é um sucesso! Ninguém pode afirmar o contrário. Acredito que, pela forma como foi produzido e a distribuição que foi conseguida, já marcámos o panorama cinematográfico português. Obviamente que, quer toda a equipa que esteve envolvida no projecto, quer a Zon Lusomundo que acreditou em nós, deseja que o filme alcance o maior número de espectadores possível. Temos como meta 80 000 espectadores.

Site oficial de «Um Funeral à Chuva»

Vê se «Um Funeral à Chuva» vai ser apresentado na tua cidade.

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Apreciador de música, cinema, livros. A bem dizer, apreciador de tudo um pouco. Co-criador e editor do projecto ilícito[mag]. Para mais sobre este indivíduo, visitem http://flavors.me/bmcn.

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