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Concentração Internacional de Motos 2010: quem tem mota, vai a Faro!

Quer os vejamos como Cavaleiros do Apocalipse prontos a levar o caos e destruição por onde passam, quer como símbolos de uma liberdade de que somos tantas vezes privados por uma sociedade que põe de parte tudo quanto é pouco convencional, não se pode deixar de reconhecer que durante três dias a cidade de Faro ganha uma nova vida com a chegada dos cerca de 20 mil motards que se deslocam até ao Vale das Almas para mais uma edição – neste caso a XXIX – da Concentração Internacional de Motos organizada pelo Moto Clube de Faro.

Toda a mística ligada a este mundo, imortalizada no cinema por exemplo em «Easy Rider», faz com que os milhares de pessoas que se deslocam ao Vale das Almas não sejam apenas motards mas também muitos curiosos que, mesmo sem mota, querem experimentar o melhor que o evento tem para oferecer.

De facto, a enchente que todos os anos se desloca até Faro faz com que nada por lá seja deixado ao acaso. Com uma estrutura de apoio composta por mais de 1200 voluntários movidos apenas pelo amor à camisola, esta Concentração começa a ser pensada com meses de antecedência, quer seja na preparação do recinto quer na angariação de voluntários. Todos contribuem para que a Concentração de Faro se tenha tornado numa Meca para os amantes das duas rodas.

Quanto à massa humana? Essa é tão heterogénea quanto possível. Embora o estereótipo do “feio, porco e mau” possa servir bem para alguns dos que andam pelo recinto, este é sem dúvida redutor e até ofensivo para a grande maioria. Vêem-se por isso pela concentração homens e mulheres, sozinhos ou em família, de todas as idades, extractos sociais e até religiões.

Apesar de, para uma boa parte dos motards, as celebrações começarem com alguns dias de antecedência, é por norma o sábado o dia forte do festival – com os nomes sonantes do cartaz musical a actuar neste dia. Este ano a organização deixou o palco a cargo de nomes como Ojos de Brujo, Roger Hodgson (ex-Supertramp) e os portugueses Blasted Mechanism. Além destes nomes, por si só catalisadores do público, houve tempo ainda para os habituais espectáculos de strip (ingrediente essencial em qualquer concentração motard), o bike show – uma mostra de motas personalizadas e o concurso de tatuagens ou até mesmo a eleição da Miss Faro 2010.

Transposto o corredor de entrada no recinto, surgia todo um mundo novo: milhares de motas, paradas ou em movimento, acompanhadas por ainda mais milhares de pessoas, mais ou menos invulgares, mas que partilham ali um espaço em comum sem qualquer atrito. Também à disposição do visitante estava uma pequena feira onde, para além dos típicos “comes e bebes” era possível encontrar os mais variados artigos relacionados com o mundo motard, assim como um pequeno oásis simulando ali mesmo um local paradisíaco por entre um deserto escaldante.

Já o dia perdia a sua luminosidade natural quando no palco era anunciada a banda que teria a tarefa de abrir a noite. Os Ojos de Brujo eram assim recebidos por uma vasta malha humana, composta por muitos espanhóis que fizeram com que a banda se sentisse em casa. Com um som que mistura as sonoridades tradicionais espanholas com um toque de modernidade dado pela presença de um MC, os Ojos de Brujo cativaram o público com facilidade, não obstante a ingrata tarefa que é sempre a de abrir um palco, principalmente tendo em conta o nome que se seguia. Roger Hodgson, co-fundador, letrista e músico dos Supertramp chamou ainda mais gente para junto do palco. Provando que os motards também têm sentimentos, o “Sr. Supertramp” percorreu os grandes êxitos da sua já longa carreira, fazendo com que o público oscilasse entre a nostalgia e a alegria. Sempre muito comunicativo com todos os presentes, Hodgson cantou hinos como «Breakfast In America», «Take The Long Way Home», «Give A Little Bit» e «Dreamer» para deleite dos fãs ou daqueles que, não conhecendo o músico o reconheciam nas melodias. No final, ficou a promessa de voltar em breve ao nosso país.

Depois de um concerto intenso, os mais velhos davam os lugares da frente às camadas mais jovens. O motivo era a entrada em palco dos Blasted Mechanism. Quem já os viu sabe que mais do que um simples concerto, os Blasted proporcionam um espectáculo completo, onde a componente visual é da maior importância. Assim, não é difícil imaginar os acessórios que a banda usava, reforçando o imaginário que sempre cultivaram de que são uma banda de outro mundo. Alienígenas ou não, a verdade é que os Blasted Mechanism conseguiram tirar os primeiros pés do chão, metendo milhares de pessoas aos saltos num transe frenético de dança e alegria. O alinhamento escolhido não defraudou as expectativas e parece ter pecado apenas na duração, uma vez que depois do encore, muitos eram os fãs que gritavam por. Foi, ainda assim, o encerrar perfeito para a última noite da Concentração de Faro.

No entanto, tínhamos mencionado que o striptease é componente essencial em qualquer concentração que se orgulhe desse nome, pelo que este não faltou nesta noite de sábado. Entre os concertos a audiência era presenteada com um espectáculo de danças exóticas.

Ainda assim, e depois de um dia movimentado, é apenas no domingo que chega realmente ao fim mais uma concentração. Milhares de participantes desfilam pelas ruas de Faro, num misto de despedida e agradecimento aos habitantes desta cidade que os acolhe todos os anos. E os locais retribuem o gesto preenchendo os passeios das ruas por onde a caravana de motas passa, num misto de sentimentos, mas onde o dominante será sem dúvida a admiração.

Fazendo um balanço aos três dias de Concentração, a 29º edição, embora com menos participantes que no ano anterior – provavelmente reflexo da crise que se sente um pouco por toda a parte – foi um sucesso, e deixará saudade a todos os que nela participaram. Desmontam-se então as tendas, trocam-se números de telemóvel e combina-se o reencontro para o ano que vem, certamente especial por ser o trigésimo aniversário da concentração. Uma coisa é certa: se os Moto Ratos de Marte fossem reais, até eles estariam em Faro por esta altura.

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