Com uma história que nos faz retroceder a 1976, a Festa do Avante! tornou-se, não obstante a sua dimensão político-partidária, numa das maiores iniciativas culturais do país. Prova disso é a vasta e diversa massa humana que circula pela Quinta da Atalaia, local eleito para a realização da festa há 20 anos. De famílias compostas por respeitáveis avós acompanhados pelos seus filhos e netos, a punks de crista colorida munidos de cerveja, nesta festa não faltam ainda o típico frequentador de festivais de verão e tantas outras pessoas que simplesmente não se enquadram em nenhum estilo em particular. E é pois graças a esta saudável convivência entre todas estas pessoas, unidas ou não pelo ideal político, assim como a uma vasta oferta musical, cultural e até desportiva, que fazem com que se torne verdadeira a máxima que muitos atribuem à Festa do Avante!: “Não há festa como esta!”.
Realizada no primeiro fim-de-semana de Setembro, a Festa do Avante! marca não só a reentré política do Partido Comunista Português, como também para muitos jovens, o fim de mais uma época de festivais de verão. Com um acampamento exterior de larga dimensão, a cidade que dá corpo ao Avante! começa a ser construída por voluntários com alguns meses de antecedência. Finda a construção, eis que os visitantes podem admirar os vários espaços erguidos, com destaque para o “Espaço Central”, espaço por excelência destinado ao PCP e às questões políticas, ou a “Cidade da Juventude”, ponto de encontro dos jovens e espaço vizinho do palco “Novos Valores”, onde os mais recentes projectos da música nacional se fazem ouvir.
Este é no entanto apenas um entre os muitos palcos presentes um pouco por todo o recinto, sendo o Palco 25 de Abril o mais notável, não só pela sua dimensão, mas também por passarem por ali os maiores nomes musicais do Avante!, num cartaz que não conhece fronteiras.
Assim, a noite de sexta-feira, primeiro dia de festa, teve início ao som de música clássica, num espectáculo dedicado nesta edição à celebração dos 25 anos da música, que serve também de hino à festa, “A Carvalhesa”. Durante os restantes dias as bandas que por lá passaram foram tão abrangentes quanto possível: houve espaço para o folclore rockeiro dos Diabo na Cruz, o fado ligeiro dos Deolinda, o punk hardcore dos catalães EINA, o rock nacional da all-star band Dias de Raiva, o punk rock dos Peste e Sida e ainda para artistas mais familiares como Expensive Soul, Pedro Abrunhosa e Comité Caviar e ainda Tim e Companheiros de Aventura, a quem coube a tarefa de encerrar o palco e a festa.
Apesar da quantidade de bandas, a música não se ficou pelo palco principal. O palco 1º de Maio, por exemplo, contou sempre com lotação esgotada, não só pela sombra que oferecia aos visitantes durante o dia, mas também devido à qualidade dos artistas que por lá passaram, com destaque para A Naifa, Os Tornados e para o projecto Monte Lunai, que transformou o recinto numa enorme aula de dança colectiva. Além deste, palcos como o Café Concerto de Lisboa, o Palco de Setúbal ou até mesmo o palco Arraial ofereceriam a toda a hora uma vasta oferta que permitiu que nunca, por um momento que fosse, se deixasse esmorecer a festa.
Mas não só de música vive o Avante!. A cultura é um ponto-chave, sendo possível viajar por Portugal e pelo mundo sem nunca se sair da Quinta da Atalaia. Todos os distritos de Portugal estão representados nesta festa, não só com as suas iguarias e petiscos, como também com os seus produtos de artesanato. Todos os distritos de Portugal estão representados nesta festa, não só com as suas iguarias e petiscos, que oferecem aconchego ao estômago dos visitantes, como também com os seus produtos de artesanato. De norte a sul, não esquecendo nunca as ilhas, podemos começar por experimentar um prato da Madeira e acabar a comer os ovos-moles de Aveiro, aproveitando para, entretanto, comprar um copo como recordação da Marinha Grande, um lenço típico de Viana do Castelo ou até um Galo de Barcelos.
Não se esquecendo a componente política, junto aos espaços de cada distrito é sempre assinalável a presença de murais, cartazes e outras referências em diversos suportes indicando os problemas que mais afligem cada um dos distritos.
Indo “para fora lá dentro”, uma visita pela área internacional da festa permitia descobrir mais sobre as realidades de vários países onde a presença de Partidos Comunistas tem impacto. De Cuba à Rússia, passando pela Venezuela, Brasil, Inglaterra, Turquia ou Irão, entre outros, ao visitantes era dada a oportunidade de viajar pelos quatro cantos do mundo, mais uma vez, através da gastronomia e artesanato.
Não se fica no entanto por aqui a cultura. No recinto marcam ainda presença Feiras do Disco e do Livro. No certame literário, este ano foi dedicado às obras de José Saramago, membro activo do Partido Comunista e autor distinguido com um Nobel falecido em Junho passado, e Lenine, celebrando-se o 140º aniversário do seu nascimento.
Não se pode falar do Avante! sem falar de política. Durante todo o festival são inúmeros os debates e conferências que têm lugar. Numa época marcado por um certo desinteresse pelos assuntos da política, a Festa do Avante! oferece debates sobre diversos temas, da actualidade política do país, às questões ambientais, numa tentativa de cativar os diversos visitantes a inteirarem-se sobre tais assuntos.
O momento alto, do ponto de vista político, foi inevitavelmente o comício de encerramento da Festa, que terminou com o discurso do secretário-geral do PCP, Jerónimo de Sousa, naturalmente crítico em relação à actual situação do país.
Referidas que estão a música, a política, a ciência e o desporto e as áreas dedicadas ao país e países lá de fora, torna-se imperativo destacar o que faz desta festa o sucesso em que se tornou nestes anos: as pessoas. Durante os três dias todos se tornam camaradas e vivem, de uma forma ou de outra, nas franjas do sonho que Marx e Engels idealizaram. Lado a lado com os “festivaleiros” apolíticos convivem os comunistas ferrenhos, os que acreditam no ideal e usam as mesmas t-shirts que os outros como quem usa uniformes. Parece ser pois, graças a esta mescla humana, que o Avante! tem permanecido como um dos maiores eventos nacionais ao longo dos 34 anos que se realiza.
E assim se passa mais uma edição do Avante!, um evento no qual ao terceiro dia de Festa termina para muitos o sonho comunista, enquanto para outros este acaba apenas de começar.
- Para encontrarem mais fotos visitem o álbum Festa do Avante! 2010, no Facebook de Mário Cunha.






