A neblina pesada e sombria que pairava no ar, numa noite ainda assim agradavel, dava as boas vindas à misteriosa vila Sintra – uma daquelas que insistem, e bem, em permanecer vila. Quem o afirmou foi a mesma pessoa pela qual o grande auditório do Centro Cultural Olga Cadaval se encheu numa noite de sexta-feira. Falamos, pois claro, de Samuel Úria, um dos nomes de uma nova geração de músicos que, desde o lançamento de «Nem lhe tocava» no ano de 2009, mais entusiasmo tem gerado junto do público e crítica. Neste concerto, Úria apresentou-se bem acompanhado pelos habituais Filipe Sousa, Jónatas Pires, Miguel Sousa, Tiago Ramos e Miriam Macaia, contando ainda com participações de Celina da Piedade e Silas Ferreira, aos quais se juntou ainda um coro juvenil nas músicas «Água de Colónia da Babilónia» e «Império» – protagonizando dois dos momentos altos da noite.
Em palco Samuel Úria apresentou-se como um verdadeiro entertainer, conversador e transparecendo a certa altura a sensação de que por maior que o auditório seja, Úria tem o dom de o tornar intimista realizando um concerto para amigos, neste caso o seu público. Com um alinhamento composto essencialmente por músicas – onde temas como «O Diabo», «Teimoso» e «Não Arrastes o Meu Caixão» tiveram a capacidade de “incendiar” o palco e o público – do seu mais recente álbum, houve ainda assim tempo para os típicos devaneios, como uma deliciosa versão de «Something» de George Harrison, assim como alguns inéditos.
Dir-se-á, muitas vezes, que só se conhece verdadeiramente a essência de um músico depois de o ver ao vivo. Ora se o álbum apresenta Úria como um grande compositor de canções e de letras, em concerto toda a sua irreverência, digna de uma rock-star em plepoino estado de sobriedade, vem ao de cima, ilustrando toda a vitalidade e qualidade que a (boa) música portuguesa contém. Porque diga-se que, tal como as vilas, também existe música portuguesa que insiste em permanecer…portuguesa. E isto só pode ser motivo de orgulho.
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