Um denso nevoeiro cobria a cidade de Lisboa, enquanto os relâmpagos iam iluminando o céu da inerte cidade. De repente, um grito agudo e estridente quebra a monotonia que até então se fazia sentir. O grito dá lugar a um barulho amorfo impossível de distinguir à distância.
Nos arredores do Largo de Camões, em plena baixa da cidade, o barulho aumenta de intensidade e o que até então era apenas um som imperceptível começa a ganhar forma, sendo possível distinguir uma palavra repetida pela multidão que se avistava ao longe.
Com o aumento da proximidade começava a pairar no ar um cheiro nauseabundo, sinal porventura de que algo de errado se passava. A seguir ao cheiro veio o choque visual, pois não eram já pessoas que se agrupavam naquele espaço, mas sim mortos-vivos, zombies que repetiam incansavelmente o único item do menu que ainda lhes vai satisfazendo uma fome avassaladora: cérebros!
Em nome da verdade, não foi bem isto que se passou, mas é bem possível que algum incauto transeunte que tenha passado pela baixa lisboeta no passado dia 30 de Setembro tenha ficado com uma impressão algo semelhante àquela acima descrita. Na realidade esta era apenas uma Zombie Walk, fenómeno nascido por terras do Tio Sam, mas que depressa se espalhou um pouco por todo o lado, quase sempre ocorrendo em centros urbanos onde se juntam os fãs de todo um género artístico associado à figura do zombie e que abrange cinema, videojogos, literatura, banda-desenhada e até música.
Não sendo ainda comparável em dimensão a algumas das grandes zombie walks que se realizam pelo estrangeiro, a que teve lugar em Lisboa reuniu ainda assim um número simpático de pessoas (algumas dezenas de mortos-vivos marcaram presença) e celebrou, este ano em particular, a presença de George Romero, célebre realizador de alguns dos filmes de zombies mais conhecidos de sempre, em Portugal, por ocasião do MOTELx (Festival Internacional de Cinema de Terror de Lisboa).
Em Portugal esta foi, segundo o ilícito conseguiu apurar, a terceira Zombie Walk Lisboa, tendo a primeira ocorrido na Noite das Bruxas de 2007.
No entanto, nem tudo são rosas. Muitas pessoas parecem ainda não estar a par do conceito de zombie e apareceram tarde e mal compostos no Largo Camões, de onde a Zombie Walk partiria. A organização colocou felizmente algumas maquilhadoras ao dispor dos menos inspirados, corrigindo ou criando de origem o visual zombie necessário à participação num evento destes. No entanto, os melhores zombies vieram sem dúvida preparados de casa, onde, sem pressas, puderam preparar os seus trajes de forma calma e reflectida, parecendo-se por isso com zombies e não tanto com membros de um clube de fãs dos Mistfits ou apenas góticos maldispostos.

Com partida do Largo de Camões, a parada passou ainda pelos Armazéns do Chiado, até ao Rossio, seguindo pela Rua Augusta, ao qual se seguiu uma passagem pelos Restauradores e a subida da Avenida da Liberdade, com o objectivo de se terminar a parada no Cinema São Jorge onde decorria o MOTELx. Durante todo o percurso, a horda de zombies interagia com o público que por eles passava, causando um leque diverso de reacções, ainda que sempre marcadas pelo bom humor (não obstante até os exageros de alguns participantes do evento). De realçar a afirmação de uma transeunte, que ao ver o grupo exclamou para as suas amigas “devem ser de Medicina!”.
Chegados ao Cinema São Jorge houve espaço ainda para a entrega de alguns prémios aos melhores vestidos. Ainda que um tanto ou quanto caótica, sempre fez a alegria de grande parte dos presentes que acabaram por levar para casa alguns livros assim como bilhetes para um concerto de Moonspell.
Infelizmente, o ilícito não teve tempo para estar presente na apresentação da primeira fatia vertical do projecto liZboa. Fica ainda assim a referência a este jogo totalmente em português passado em Lisboa, num cenário pós-apocalíptico repleto de zombies, onde o jogador assume o papel de um sobrevivente a um pandémico surto de mortos vivos.
Desta forma, e embora as expectativas iniciais pudessem não ser as melhores, a Zombie Walk Lisboa acabou por ser um serão divertido para todos os participantes, sendo que a organização deixou o convite a todos os amantes do fenómeno zombie (rápidos ou lentos) a estarem presentes nas próximas paradas.

– Para encontrarem mais fotos visitem o álbum Zombie Walk Lisboa 2010, no Facebook de Mário Cunha.

