feedsIcon

A última provocação de um crente, Saramago

Miguel Gonçalves Mendes começa por querer desfazer um equívoco: o de que o Nobel da Literatura José Saramago seria um sujeito azedo, amargo e – de alguma forma, “indigno” da simpatia da generalidade dos seus compatriotas. Vai daí, o fã negociou com o cineasta – que já tinha documentado em película outro escritor português, Mário Cesariny, em «Autografia» (2005) – e sugeriu a José Saramago fazer um documentário sobre si e o seu dia-a-dia, o que o escritor recusou sucessivamente ao longo de seis meses por correio electrónico.

Uma vez convencido o documentado, Miguel Gonçalves Mendes mudou-se para Lanzarote para filmar – sem, no entanto, alguma vez imaginar que essas filmagens lhe tomariam quatro anos da sua vida (e bastante dinheiro, nas palavras do próprio) e que o documentário que ele acabaria por fazer seria muito pouco um documentário e teria pelo menos uma co-autoria não assumida na ficha técnica: a do próprio José Saramago. Porque em «José e Pilar», Saramago é o documentado mas também o documentarista.

O Nobel parece quase sempre consciente da sua finitude e de que este documento é essencial para percepção da sua vida e complemento da sua obra. Também por isso, Pilar (que não tem ideias para romances, mas “tem ideias para a vida”, diz Saramago) teria que ser parte deste filme: ao mesmo tempo que organiza toda a agenda do Nobel (e foi, também por isso, grande responsável pelo sucesso do escritor), a jornalista e tradutora espanhola simboliza o amor e a esperança – porque é de esperança que falamos, quando a vida de um homem desempregado que recomeça a escrever ficção com mais de 50 anos chega à glória de conquistar o mais emblemático prémio da Literatura Universal. E é de esperança que falamos quando um homem redescobre o amor aos 63 anos – e cujo único anseio aos 84 anos é o de ter mais tempo, mais vida: “para continuar a trabalhar”, escrevendo romances, e para Pilar (“que tanto tardou a chegar”, como dedica José Saramago n’«As Pequenas Memórias»).

Não há ateus na cova do lobo

O tempo e a morte são, precisamente, as obsessões de Miguel Gonçalves Mendes – principalmente porque, presume-se, as filmagens do documentário decorrem durante a escrita d’«A Viagem do Elefante», processo em que se temeu pela vida do Nobel devido a um grave problema de saúde. Também por isso, «José e Pilar» mostra o que parece ser uma corrida contra o tempo: sucedem-se as imagens dos incontáveis compromissos em inúmeras partes do mundo e mesmo em Lanzarote, o porto de abrigo de Saramago e da sua companheira, são constantes as imagens em trânsito pela ilha.

Para o espectador comum, que sabe o final desta história, é evidente que a morte está presente mesmo antes de acontecer (no ecrã). Mas apesar dela, esta continua a ser uma história de esperança – e não só pelas razões acima descritas.

Mesmo com a proximidade da morte, Saramago tem sempre a lucidez e a provocação pronta a que nos habituou. Em entrevistas passadas, chegou a admitir – mais jocosamente do que outra coisa, esclareçamos – que o seu ateísmo afrouxasse com a proximidade da morte. Mas neste «José e Pilar» – e ultrapassadas as provocações ao “Deus vingativo” por altura do seu «Caim» (livro que foi escrito já depois de terminadas as gravações para este documentário) -, Saramago reafirma a sua imunidade a Deus com o bom humor que poucos reconheceram em vida. “Deus? Com 83 anos já era tempo de começar a pensar no futuro…”. Mas o Nobel, tido como amargo, taciturno, triste, e principalmente um descrente profissional, é precisamente quem nos oferece uma lição de esperança, de crença. Com uma só frase, no início e no fim do filme: “Pilar, encontramo-nos noutro sítio”.

O homem que nos oferece Miguel Gonçalves Mendes é o homem que desacreditou Deus ao longo de toda uma vida e rejeitou sempre “qualquer tipo de vida eterna”, mas condescende para considerar que um amor como o seu e de Pilar del Rio sobrevive a Deus, à terra e à destruição dos corpos. E, pelo menos, neste documentário, Saramago teve razão.

- «José e Pilar» estreia em Portugal no próximo dia 18 de Novembro, depois de ter estreado em 11 salas no Brasil no passado dia 5 de Novembro.

- Entrevistas com o realizador, Miguel Gonçalves Mendes, aqui e aqui.

Artigos Relacionados:

Sobre o autor: Subscrever Artigos deste autor

Nome:

Número de Artigos: 26


Jornalista. Amante de literatura, política, cinema, música, desporto e senhoras. Seguir, aqui: http://objectoquase.blogspot.com

Comente