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Existe uma literatura do sul? (Ou não existe literatura de lado nenhum – só Literatura?)

foto de Gabrielle Kai

Aviso à navegação: este texto começa com uma pergunta mas não termina com uma resposta. A pergunta: há uma escrita do sul? Reformulemos: há uma escrita de algum lado? Lançados os dados, queiram os caros leitores, sem coacção ou engano, escolher se continuam por cá ou saltitam para outro sítio (que os há por aí, muitos e mais giros, com anedotas e tudo).

A pergunta, também é justo dizê-lo, não é feita por este que vos escreve. Foi inclusivamente tema de debate – organizado no âmbito dos 30 anos de carreira literária (iniciada com “O Dia dos Prodígios”) de uma escritora portuguesa que é, por sinal, algarvia: Lídia Jorge.

A moderadora do debate, Carina Infante do Carmo, começa por lançar a confusão: será que existe tal coisa? “Raul Brandão nasceu no Porto mas escreveu sobre todo o país e também sobre o Algarve como poucos”, diz. Chamado para uma discussão em que se assume desconfortável, Nuno Júdice também vai dizendo que prefere “falar em literatura portuguesa do que em literatura do sul, embora essas diferenças possam naturalmente existir… e o Algarve tem um lado luminoso, solar, muito marcado”.

Outro dos cépticos em relação à literatura do sul (ou de parte alguma) é o poeta Gastão Cruz, que se justifica com o relativismo que deve ser imposto a este tipo de chavões. “Se pensarmos em Portugal, podemos considerá-lo um país do sul… em relação à Suécia. Também podemos considerar o Algarve sul, se em relação a Portugal. No entanto, se pensarmos em África… E nem toda a literatura que se faz em Portugal ou no Algarve é literatura do sul, se é que isso existe. E eu, pessoalmente, acho que não existe”, explica. “Mas o facto de nascermos no Algarve ou no sul talvez faça de nós escritores do sul, mesmo que não falemos do sul na nossa escrita…”, assente Gastão Cruz.

Fernando Cabrita também não tem certezas sobre o assunto, mas assume que “a tentativa de tentar enquadrar a literatura em regiões ou outros espaços artificias pode ter algum prejuízo na própria literatura”, embora “existam escrita ou poesia do sul, como a de João de Deus – que dizia: Terra onde se nasce é mãe também”. “E é mãe literária, também”, acrescenta Cabrita. A própria “anfitriã”, Lídia Jorge, reconhece-se numa certa escrita do sul. “Não é algo consciente. [A escrita do sul] é uma formatação de que se fica investida. Pessoalmente, escreva onde escrever ou a propósito do que escrever, os tais elementos estão sempre presentes. E se não estão, sinto-me despida”, explica a autora.

Mas mesmo sem consensos sobre se existe tal coisa, há quem concorde que se pode ser um escritor do sul, como Raul Brandão, tendo nascido noutro sítio qualquer. E há mais exemplos: “Cesário Verde também escreve sobre imagens do sul…”, alerta Cabrita. “Ou Eugénio de Andrade [que até fez a tropa em Tavira...]”, lembra Lídia Jorge. Mas há também dúvidas: “A Sophia Mello Breyner converteu-se ao Algarve a partir de certa idade, podemos considerá-la uma escritora do sul? Nos seus poemas, ela fala muito da luz, do mar… embora ela já os escrevesse antes de vir para o Algarve…”, questiona Gastão Cruz.

O que não deixa dúvidas é que ser conotado como escritor de uma região não é, por norma, um elogio. “Ninguém fala do Mário Cláudio como escritor do Porto, mas a mim referem-me sempre como escritora algarvia”, ironiza a escritora algarvia. Fernando Cabrita concorda e defende um certo estigma a que são votados escritores de uma região. “Ninguém pretende incorrer num quase pecado de ser considerado um escritor algarvio ou regional”, lembra.

Gastão Cruz lembra também o caso do poeta António Ramos Rosa, que “ficava muito irritado quando alguém lhe chamava poeta algarvio”. “E com alguma razão, reconheço”, acrescenta, lembrando a malícia de “Mário Cesariny, também ele um grande poeta, que gostava de dizer que o Ramos Rosa era o maior poeta do Algarve, enquanto o Eugénio de Andrade era o maior poeta do Porto, e por aí em diante…”.

Mas a anfitriã Lídia Jorge tem a palavra final, e ultrapassa o “preconceito” com o pós-modernismo vigente. “Uma das vantagens hoje em dia é que todos podemos ser aldeões em qualquer sítio. Descomplexámo-nos”, refere. Mas a Literatura, se ela é isso mesmo, tem pouco a ver com a região de onde se vem, diz Lídia Jorge. “Se um escritor é um escritor poderoso, ele escreve uma outra região acerca da sua região… É o que acontece com escritores como Steinbeck, ou Faulkner com o seu Mississipi… Se não se propuser uma região literária, se não se acrescentar essa outra dimensão, não haverá uma proposta literária que perdure”, conclui Lídia Jorge.

Estamos entendidos? Ok.

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Jornalista. Amante de literatura, política, cinema, música, desporto e senhoras. Seguir, aqui: http://objectoquase.blogspot.com

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