Um livro é aquilo que é mas é também aquilo que parece ser. E o “Livro”, assim chamado, é bastante menos pretensioso do que faz parecer – embora, reconheçamos, alguma pretensão não faça mal a ninguém (muito menos a um escritor talentoso). Mas a pretensão de José Luís Peixoto, no “Livro” – e não “O Livro” – é mais do que legítima. O escritor português, destacado com o Prémio Saramago em 2001, escreve uma obra – não será talvez adequado chamar-lhe um romance – fragmentada em duas partes (dois livros, quase), que têm como pano de fundo o Portugal dos anos 60 e 70 e a emigração.
Num retrato fiel de certa ruralidade, o escritor escreve uma história que é também a sua: a da sua aldeia, Galveias – que, embora não seja identificada, é assumida pelo autor e reconhecida pelas pessoas, quer pelas suas descrições, quer pelas personagens que habitam o livro, com nomes de pessoas (Ilídio, Adelaide, Galopim, Cosme, Josué…) que fizeram parte da sua infância. Mas esta é também a história da sua família: os seus pais foram emigrantes em França e voltaram, depois, à terra de onde eram naturais para se estabelecerem.
Mas apesar das características em parte autobiográficas do livro, este não se insere nem de perto nem de longe no cânone realista ou neo-realista que o tema da emigração dos anos 60 ou 70 podia deixar antever. Por vezes, Peixoto até pintalga o livro com descrições realistas – como as das ruas e da fonte da aldeia, que não chega a identificar – mas o tom é quase fantástico. A épica jornada que leva Ilídio até França é um desses momentos quase mágicos. Na segunda parte do Livro, pelo contrário, o narrador muda e interpela directamente o leitor, contando uma outra história que é afinal a mesma, desconstruindo-a.
O que se tira do Livro é talvez a obra mais completa e melhor acabada de José Luís Peixoto, que estilisticamente é cada vez mais escritor (em determinadas alturas desconstrói também a língua portuguesa, como já tínhamos visto fazer por exemplo Saramago ou o seu – de Peixoto – companheiro de geração Ricardo Adolfo) e cada vez mais se assume como um dos escritores mais sólidos da nova geração portuguesa, a par de Gonçalo M. Tavares e valter hugo mãe.
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Nome: Pedro F. Guerreiro
Número de Artigos: 26
Jornalista. Amante de literatura, política, cinema, música, desporto e senhoras. Seguir, aqui: http://objectoquase.blogspot.com

Curiosidade em mergulhar na obra, mas as resistências depois das últimas "heresias"… A ver vamos.
"Livro"(s) são comigo e, bom ou mau, irei mergulhar neste. Mas saúdo-o pelos temas e experimentalismos que denota.