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«The Mixtape Club»: A Arte da Compilação

Seoul Flea Market

Foto de semantics aside

Tempos houve em que a cassete era rainha. Mercados, feiras e discotecas eram os sítios onde esta espécie podia ser avistada com maior facilidade.

Coloridas, transparentes, da Sony, BASF, TDK ou Maxell, durante mais de vinte anos foram a forma mais popular no que toca à transmissão de sons musicais.

Nasceram no início da década de 60 pela mão dos holandeses da Koninklijke Philips Electronics N.V., ou mais simplesmente Philips, uma companhia repleta de mentes com iniciativa e mestria para tornar compactos os mais diversos equipamentos de consumo electrónicos.

Sucessora dos discos de vinil, vencedora unânime no confronto com os contemporâneos cartuchos 8-track, a cassete ainda por aí anda. Não se encontra à venda nas grandes superfícies, raras são as edições oficiais de álbuns no seu formato, e mesmo que as encontrem, torna-se cada vez mais difícil encontrar ferramenta onde as ouvir.
Este não é, no entanto, um relato sobre as tribulações da cassete ou K7, para sermos mais sucintos. O rectângulo de plástico e fita magnética é apenas um pretexto, um meio para atingir o fim que aqui se pretende.

A massificação da K7, e consequentemente dos gravadores, faz nascer consigo o conceito de mixtape pessoal e transmissível. Inicialmente associadas às simples compilações de músicas ou determinados êxitos de uma editora, numa época em que a sua divulgação era feita de mão em mão, a popularidade das mixtapes foi crescendo à medida que os seus criadores se foram apercebendo do seu potencial, tanto como forma de partilha de música, ou como veículo de expressão para os mais diversos sentimentos de cada um.

Tendo atingido o auge nos anos 80, certo é que o surgimento do CD no início da década de 90 e, anos mais tarde, com a massificação do uso da internet, a K7 enquanto formato foi perdendo força e consequentemente o culto existente em torno das mixtapes dissipou-se, caindo mesmo na banalização.

O século XXI parece ser no entanto de renascimento para este elemento fulcral na história da música popular. A mixtape deixou de ser criada por qualquer pessoa com acesso a um rádio gravador, para estar disponível a alguns cliques de distância através da internet, num produto final mais limpo, profissional e sem falhas do que qualquer K7 criada por um jovem de 17 anos em 1984 no seu quarto.

A internet, esse pretenso inimigo da música é agora vista como um novo meio de divulgação a apostar, e o mundo da mixtape não é excepção, permitindo um novo sopro de vida numa arte em franco desaparecimento.

«The Mixtape Club» é o nome do projecto criado, no início de 2009, pelo norte-americano Brian Thomas, “uma organização dedicada à arte da mixtape“, segundo se pode ler num site em que o lema é “dez pessoas, dez faixas, dez capas de discos”.

“Criei o Mixtape Club com um só objectivo: encontrar e descobrir novas músicas”, começa Brian por dizer ao ilícito. “Há tantos artistas que estão a passar despercebidos. Descobri e continuo a descobrir novos artistas a cada sessão, e acho que os contribuidores e ouvintes também”, assinala.

Designer de profissão e DJ nos tempos livres, a ideia de criar o «Mixtape Club» surgiu um dia a Brian enquanto almoçava. “Lembrei-me de um projecto que um amigo meu, Micah Panama começou na universidade. Ele criou um clube privado de mixtapes de designers e artistas com quem nós estudávamos, em formato semi-analógico (CD’s). Ao mesmo tempo, veio-me à cabeça o projecto noncollective.com, criado pelo designer David McFarline”.

Foi então que, por serem dois conceitos que lhe interessavam, decidiu pôr mãos à obra e criar o «Mixtape Club», como forma de unificar estes dois elementos. “Nessa altura já eu tinha um podcast de música” diz Thomas, o que, complementando com o facto de, por um lado “existirem muitas músicas que não conhece e que estão por descobrir” e por outro lado pelo facto de conhecer muitos designers que, tal como ele, são DJ’s ou estão familiarizados com vários estilos musicais. “Na universidade de design e nos estúdios em que trabalhei, encontrei muitos artistas e designers que gostam de música tanto como eu. Na verdade, trabalho num estúdio com cinco designers e todos nós somos DJ’s. Acredito que música e design se encaixam por algum motivo”.

No filme «Alta Fidelidade», adaptação ao cinema do livro homónimo de Nick Hornby, Rob, a personagem principal da película, desempenhada por John Cusack, lança-se a certa altura num monólogo, de onde se destaca uma ideia acima de todas as outras: “The making of a great compilation tape, like breaking up, is hard to do and takes ages longer than it might seem“. Parafraseando esta afirmação ponderada e não muito distante da realidade, o antigo site do Mixtape Club destacava no seu manifesto que “uma boa compilação, tal como terminar uma relação, é difícil de fazer”.

Os sentimentos estão portanto na base de uma boa mixtape. Algo que varia entre cada criador, como refere Brian, uma vez que “nelas poderão estar referências ao Verão ou a uma época (anos 70), incluindo até temas mais complexos como uma expressão abstracta da política externa americana desde 1939 ou um diálogo entre culturas díspares através das tradições musicais”. “Certamente que será diferente para cada pessoa mas, para mim, é uma forma de expressar os meus sentimentos, assim como os de alguns dos criadores das músicas”, complementa.

À data de escrita deste artigo, o Mixtape Club contava na sua base de dados com um total de 170 álbuns. Angariados ao longo de 17 sessões a 10 mixtapes cada uma, o que não falta neste projecto é variedade musical.
Norte-americanos, brasileiros, italianos, irlandeses, o “Club” é também uma sociedade das nações, de diferentes sensibilidades, diferentes gostos musicais, em que os contribuintes destacam ainda no seu perfil os seus discos favoritos e o artwork ou capa do disco que mais apreciam.

Sem fim à vista, para o seu criador esta comunidade musical “vai continuar enquanto houver música que precise de ser descoberta e partilhada, mesmo que seja só comigo”, assegura, sendo que até agora os convidados foram “amigos, amigos dos amigos, pessoas que admiro”, para além de alguns desconhecidos que ocasionalmente lhe enviaram ligações para mixes que criaram.

Para além da música, cada mixtape destaca-se pela arte de cada capa, um elemento que parece ter surgido de forma natural, de acordo com o criador do projecto: “sendo designer, entendo a importância do artwork. Foi por isso que convidei artistas e designers no início. Depois de algumas sessões, comecei a convidar outras pessoas que não estão ligadas ao design, e a maioria delas não tem problemas em criar o seu artwork“.

Associada a uma época em que a música circulava de uma forma mais restrita, a mixtape aproveitou para evoluir ao longo dos anos, estando hoje em dia a viver uma nova vida na Internet, circulando de uma forma mais fluída e com um raio de difusão muito menos restrita.

Apesar de concordar com esta ideia, para Brian a situação actual ainda está longe da perfeição: “Hoje em dia ainda temos problemas com a circulação de música. Não sabemos ainda como aproveitar as tecnologias que estão ao nosso alcance”, considera, não sei antes assinalar que a situação actual “é melhor do que antes do nascimento da internet“.

“Acredito no entanto que a circulação actual tem um efeito oposto, em que todo o mundo está a ouvir as mesmas coisas. Raramente, aqui nos EUA, ouço música de outros países, e quando viajo acabo por ouvir sempre as mesmas músicas. É pena. Precisamos de utilizar a tecnologia e a globalização a nosso favor. Tento convidar pessoas que me ajudem a desvendar a muita música de qualidade que existe por esse mundo fora, seja ela mais recente ou mais antiga”.

Esta maior circulação musical traz naturalmente consigo alguns entraves (im)previstos, entre eles a atenção de entidades que regem a indústria musical. Sempre atentas a quem atravessa a linha da legalidade na violação dos direitos de autor, no caso do Mixtape Club esse problema parece não existir.

“Pouco depois da primeira sessão ir para o ar, recebei um email da Warner Brothers e até tive medo de o abrir. Mas na verdade eles queriam que um de seus artistas (Tegan & Sara) contribuísse para o Club”, conta o curador daquele espaço. “Como a maioria dos artistas nos mixtapes não são muito populares, vejo o Club como uma maneira de os promover. A falta de uma opção para download provavelmente ajuda”, lembrando que a estrutura deste projecto privilegia o streaming em detrimento do download.

Este parece ser um dado relevante na equação de sucesso do Mixtape Club, especialmente numa altura em que a indústria da música luta para sobreviver, disparando em todas as direcções que lhe pareçam viáveis. Na óptica de Brian Thomas, “cada uma [editora] é diferente da outra. Algumas delas querem dinheiro. Outras preocupam-se com os artistas. Infelizmente, acho que a tecnologia vai desempenhar uma parte importante no seu futuro, como por exemplo na criação de novos formatos digitais, empurrando os formatos analógicos cada vez mais para o abismo ou, por outro lado, distribuindo mais criações dos mesmos artistas, tornando mais difícil a descoberta de novos sons”.

Considerado pelo seu criador como “um projecto de amor e paixão”, não está previsto para o futuro do Club nenhum processo futuro que envolva o retorno financeiro. “Tento fazer a minha parte ao partilhar talento descoberto, bem como ajudá-los a ganhar o reconhecimento, respeito e dinheiro que eles merecem”, acrescenta Brian.

Com pouco mais de um ano de actividade, o Mixtape Club já foi alvo de uma pequena actualização visual, mantendo ainda assim a essência presente aquando do primeiro momento, numa experiência que o seu criador considera positiva: “apesar de ter novos convidados, o clube está-se a tornar mais inteligente a cada sessão. Os mixes estão a empurrar cada vez mais os limites, mesmo os meus próprios. A única parte difícil é conseguir que os convidados se decidam sobre os seus álbuns favoritos!”.*

Vista por muitos como um objecto retro, pertencente a um passado não muito distante, existirá ainda a hipótese de se tornarem novamente mainstream? Para Brian, a questão não passa exactamente por aí: “com os álbuns progredindo do vinil para o formato digital, a ideia das mixtapes progrediu também. Não acho que se vão tornar novamente mainstream porque o mundo digital não tem tempo para isso, mas com o Mixtape Club algumas pessoas estão a começar a perceber que também podem fazer uma mixtape. Actualmente, o Mixtape Club recebe muitos emails de pessoas a querer contribuir”, assinala.

E é assim, num mundo dividido entre o analógico e o digital que o Mixtape Club vai progredindo, ganhando cada vez mais adeptos. E é neste binómio que surge uma importante questão: poderá uma mixtape digital alguma vez ter o mesmo “feeling” que teve em décadas passadas no formato K7?

Não tanto material, esta parece ser uma questão do foro psicológico, aliada à mentalidade de cada um dos seus criadores e ouvintes. “Acredito que existe uma camada extra de gratificação quando falamos de formatos analógicos. Há qualquer coisa de especial neles. Filme. Vinil. Cassete”, considera.

“Tenho pensado em fazer umas mixtapes em formato cassete, mas infelizmente o mundo está-se a tornar cada vez mais digital a cada segundo que passa. O facto é que quase ninguém terá como ouvi-las no futuro”, admite Brian, permitindo-se no entanto fantasiar com uma futura edição especial nesse formato.

No meio de tudo isto, da música, dos artistas, dos criadores, da indústria, do Mixtape Club, perguntamo-nos se será possível criar uma mixtape perfeita, se existe uma fórmula mágica para tal efeito.

“Não sei se há um método perfeito de fazer uma mixtape. O conceito é diferente entre todos os criadores, e ouvintes também. Só espero que as mixtapes signifiquem algo para os seus criadores, e que estas desafiem os ouvintes a saírem das suas zonas de conforto musical”, afirma Brian Thomas, guardador de mixtapes.

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* Não parece ser fácil para os convidados, e muito menos para o “maestro da orquestra”, a tarefa de escolher os discos que mais gostam. Das 170 mixtapes criadas propositadamente para o Club, o ilícito pediu a Brian para nomear as cinco que mais o marcaram.
A escolha do criador do Mixtape Club não foi simples. “Não consegui escolher só cinco”, disse-nos, tendo-as escolhido pelos seu interesse pessoal, “e também porque acho que elas mostram um pouco da diversidade musical que existe no site”.
Assim sendo decidiu nomear as oito mixtapes que mais apreciou, e que o ilícito passa a apresentar, por ordem de edição:

Matthew Boyd – Eureka (002)
Guilherme Falcão – Vision Quest (002)
Nicole Lascu – Deer Eyes (003)
Noncollective – On My Mind (004)
D.Mo – Metasphere (006)
Wonford St James – We Have Landed On The Moon (010)
Pinchy Don – Pinchy Pleasures (011)
Kayo – Roll’on (013)

Email do «The Mixtape Club».

Twitter do «The Mixtape Club».

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Apreciador de música, cinema, livros. A bem dizer, apreciador de tudo um pouco. Co-criador e editor do projecto ilícito[mag]. Para mais sobre este indivíduo, visitem http://flavors.me/bmcn.

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Software Engineer @ Movensis com mestrado em Sistemas de Informação Empresariais no Instituto Superior Técnico. Fascinado por fotografia, música, cinema e bem...por tudo o que se escreve por aqui. Fundador e editor do ilícito[mag] Mais aqui

2 comentários

    Brutal! Já tive a ouvir algumas e adorei, acho que sempre me identifiquei com isto, sempre tive a mania de fazer as minhas compilações e dar ao pessoal ou levar para ouvirem e ainda metia para lá uns rabiscos a servirem de 'art'.
    Definitivamente vou tentar colaborar com uma. ;)

    • Força Martim. No meio de tantas mixtapes boas no Club, falta lá mesmo só uma coisa. Uma boa mix portuguesa!

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