A literatura nasce de muitos lados. E, por vezes, nasce também do caos. E foi aí – mais precisamente aos destroços do Furacão Katrina, em Nova Orleães – que Dave Eggers foi buscar pano de fundo para um narrativa não-ficcional sobre a tragédia, mas mais do que isso, sobre a história de um homem (e da sua família) levado numa enxurrada de violência, preconceito e injustiça.
E estes são, de facto, conceitos caros a Eggers: ele é cada vez mais um escritor de causas. Neste caso particular, descobriu a história da família Zeitoun quando leu um livro publicado em 2005, “Voices from the Storm”, que relatava a vida de vários habitantes de Nova Orleães antes, durante e depois do Katrina. E, por alguma razão, a história de Zeitoun não lhe saía da cabeça. Até que resolveu mergulhar nela. E num meticuloso trabalho jornalístico – porque é isso que ele é, e também é precisamente essa a sua formação académica -, entrevistou e seleccionou informação para contar a história de uma maneira diferente.
O resultado é uma bela narrativa sobre Abdulrahman Zeitoun, um americano de origem síria que resolveu ficar em Nova Orleães com a chegada do furacão mesmo contra a vontade da sua esposa, Kathy Zeitoun, e todos os avisos governamentais para evacuar. E com este mote se conta também uma história sobre a América. Mais precisamente sobre o sonho americano: Abdul Zeitoun é alguém que construiu – com o seu esforço e suor – um futuro melhor para si e para a sua família. E foi para não jogar fora esse esforço (e também por amor àquele país, também o seu, os Estados Unidos da América) que ficou. Para resistir. Por esperança. E por amor aos seus compatriotas.
Até que o verdadeiro caos surge e traz ao de cima o pior de uma lógica militar intervencionista bushista (estamos em 2005, ainda com ecos do 11.09.2001) e Abdul Zeitoun – que tinha percorrido as zonas inundadas numa pequena canoa apenas para salvar pessoas e alimentar cães esfaimados – acaba preso. Sem ter cometido nenhum delito. Num processo caricaturalmente kafkiano, Zeitoun vê-se enjaulado e sem possibilidade sequer de comunicar o facto aos seus familiares – que o tomam como morto.
No fim de contas, Dave Eggers faz uma grande reportagem – com “capítulos” sobre a imigração, o preconceito, a natureza humana e sobre a América em si. Isto é literatura, atenção: é uma grande (enorme) reportagem feita com a mestria de quem sabe contar uma história. Diferenças? Aqui é a vida, meus caros. E embora sendo a vida, é outro mundo. E qual é a função da literatura?
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Nome: Pedro F. Guerreiro
Número de Artigos: 26
Jornalista. Amante de literatura, política, cinema, música, desporto e senhoras. Seguir, aqui: http://objectoquase.blogspot.com
