“Sair para dar lugar aos mais novos” é um termo recorrente no mundo do futebol quando um jogador termina a carreira. O final dos Da Weasel, banda que ao longo da sua existência conseguiu gozar de uma enorme unanimidade junto do público nacional, à qual aliou ainda o sucesso comercial, parece ter significado mais ou menos isso. Não que se tratasse de uma banda gasta ou que os seus músicos estivessem “acabados”, mas sim porque, inevitavelmente, estariam a abrir espaços a novos projectos musicais – o que de resto se tem vindo a confirmar.
A verdade é que desde o início de 2010 os diversos membros da “doninha” se têm dispersado em múltiplos projectos e participações musicais que fogem, de certa forma, ao espectro musical que compunha a sonoridade dos Da Weasel. De todos esses projectos, os Teratron – banda composta por João Nobre e Pedro Quaresma – parece ser aquele que mais surpreende, acima de tudo pela ambição e pelo nível de maturidade que apresenta no seu mais recente álbum, «As Cobaias», um disco que explora novos caminhos em termos da produção portuguesa – musical e áudio-visual.
A bem dizer, apelidar apenas de álbum «As Cobaias» é ser redutor nos mais variados sentidos. Neste trabalho conceptual que alia a música ao cinema 3D e, com particular incidência, ao universo das novelas gráficas, somos convidados a mergulhar numa obra que bem poderia pertencer Frank Miller, ao som de frenéticas de guitarras sintetizadas e de difícil catalogação – dir-se-ia que os Teratron se apresentam num registo entre o transe e o electro-hardcore com traços de rock industrial(!?).
Centrado num argumento inédito de Adolfo Luxúria Canibal, «As Cobaias» relata uma história ao longo de dez capítulos (faixas) onde à música dos Teratron se juntam nomes como o próprio Adolfo Luxúria Canibal, New Max e SP – dando voz a alguns temas e garantindo consequentemente a presença de um cunho pessoal na produção das mesmas – ficando a narração a cargo de Miguel Guilherme.
Aliado a isto, é de destacar o notável trabalho do ilustrador João Maio Pinto, na concepção da estética do álbum, em forma de novela gráfica, e que viria a ser adaptado pelas equipas de produção, na realização da média metragem a três dimensões.
Toda esta miscelânea de estilos acabou por resultar naquilo que, invariavelmente, será descrito como uma espécie de video-clip do álbum, em que a história é contada através de transições de pranchas de BD, sempre com a banda de fundo e com as palavras dos intervenientes a guiarem-nos pela aventura do Professor M, na procura da caixa mágica que provoca o desmaio a incautos cidadãos.
Ouvir ou, sobretudo, assistir a «As Cobaias» pode ser um verdadeiro desafio sensorial a todos os níveis, capaz de levar o ser humano à exaustão. A começar pelo registo, quase sempre frenético, que as guitarras sintetizadas emitem, passando pelo universo soturno e sinistro da narrativa que Adolfo Luxúria Canibal criou, e terminando na experiência do 3D, torna-se difícil para o espectador não terminar o filme completamente esgotado, tendo em conta o nível de intensidade apresentado.
Obra com contornos épicos, «As Cobaias» marca a diferença no panorama audiovisual e multimédia português, merecendo por isso ser ouvida, lida e assistida, mais não seja como recompensa para quem teve a coragem de a criar.
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Nome: Pedro Martins
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Software Engineer @ Movensis com mestrado em Sistemas de Informação Empresariais no Instituto Superior Técnico. Fascinado por fotografia, música, cinema e bem...por tudo o que se escreve por aqui.
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