feedsIcon

[Crítica] Camané no Teatro das Figuras, em Faro

Camané ao vivo na Festa do Avante 2008 | Foto de Raul Pinto

Um homem baixo, levemente taciturno, caminha lentamente. Fato escuro, camisa branca. Passos curtos, serenos, tímidos. Desvia o olhar – evita enfrentar o toiro. E de olhos baixos, uma sensação de estranheza: algo nos diz que é errado aquele homem estar ali. Ali é um palco. Ele também a sente: a estranheza, o medo. Mas quando levanta o rosto, os olhos já fechados, a estranheza dá lugar a outra mistura de outras sensações.

O homem é Camané. O local, o Teatro das Figuras, em Faro. Quem se nos revela não é um homem de palco – e há-os, muitos e muitas no fado. Mas é fadista de corpo e alma (mais alma que corpo, se dizem até que ser fadista é uma “estranha” forma de vida) – e não pode fugir a esse destino, por mais que lhe doa não ter voz (e pose) para mais do que cantar.

É por não ser possível evitar esse destino (fado, vá…) que Camané se viu obrigado a superar-se. Uma e outra vez. E à sua evidente timidez. É óbvio que o homem que hoje está em palco é cada vez mais fadista. E é também cada vez um mais refinado músico – mesmo se não toca nenhum instrumento. Entre canções, está notoriamente mais à-vontade do que há anos, embora continue parco em palavras. Mas não se engasga quando fala. Suporta melhor o palco: é-lhe menos “assustador”.

Esse crescimento, quer em palco, quer em estúdio, tem vários responsáveis – incluindo (ou principalmente) o próprio: Camané é um fadista rigoroso, metódico e amante do que faz. Só isso prova que se rodeie dos melhores músicos (José Manuel Neto, Carlos Manuel Proença, Carlos Bica ou José Mário Branco, o seu produtor) e que goste de cantar os melhores poetas, como David Mourão-Ferreira, Manuela de Freitas, Pedro Homem de Mello ou Jacinto Lucas Pires e até inéditos de Fernando Pessoa ou Sérgio Godinho.

Estas influências (e o bom gosto, claro) são decisivas no que é hoje Camané: um fadista de corpo inteiro, músico distinto e refinado, e de alguma forma reconciliado com a vida, o que lhe permite hoje (nos temas do seu último disco, leia-se) cantar com uma ironia que não se lhe reconhecia.

E mesmo que, num concerto em Faro, um homem perfeccionista não actue com os seus músicos de (quase) sempre – José Manuel Neto (guitarra portuguesa), Carlos Manuel Proença (viola) e Carlos Bica (contra-baixo) – e se sucedam por isso pequenas imprecisões, que repreende com gestos comedidos mas seguros, é impossível não notar que Camané está crescido. Está um Senhor do Fado – talvez o único que temos. É impossível não gostar dele.

Fotografia da autoria de Raul Pinto | site | flickr

Artigos Relacionados:

Sobre o autor: Subscrever Artigos deste autor

Nome:

Número de Artigos: 26


Jornalista. Amante de literatura, política, cinema, música, desporto e senhoras. Seguir, aqui: http://objectoquase.blogspot.com

Comente