Portugal tem talento. E não nos referimos evidentemente ao programa de TV, mas antes fazemos uma constatação de facto. Poderíamos até ter ido mais longe e dizer que o Algarve tem talento, mas nestas coisas não há porque ser egoísta e certamente os algarvios não se importarão de partilhar este talento com o resto do país. Mas onde pára então este talento, já que o programa apresentado por Bárbara Guimarães pouco tem mostrado? Não sabemos ao certo por onde está neste exacto momento, mas podemos garantir que no passado dia 24 de Fevereiro, esteve pelas 21h00 no Museu Municipal de Faro, numa tertúlia descontraída e informal com os associados e amigos da Associação Livre de Fotógrafos do Algarve (A.L.F.A).
André Boto, assim se chama o talento em causa, cresceu em Silves, tirou um curso superior em Beja, findo o qual optou pela formação especifica na área da fotografia: entrou na Oficina da Imagem onde tirou o curso de Fotografia Avançada e Fotografia Conceptual. Assim, e com apenas 25 anos conta já com um currículo invejável enquanto fotógrafo, tendo ganho cerca de 68 concursos em Portugal. Em 2010 foi o primeiro português a ser distinguido com o título de Fotógrafo Europeu do Ano, distinção atribuída pela FEP (Federação Europeia de Fotógrafos). Não fosse o seu currículo já invejável o suficiente, André Boto obteve também os certificados de «Qualified European Photographer» nas categorias de Retrato e Ilustração, assim como o título de Master, sendo também aqui o primeiro português a conseguir esta distinção.
Com o pontapé de saída dado por Maia Coimbra e Carlos Cruz, respectivamente presidente e vogal da direcção da ALFA, a ocasião serviu também para apresentar a associação assim como o calendário de actividades por esta organizadas. Posto isto, André Boto iniciou então a sua apresentação dedicada ao tema «Fotografia na Era Digital».
O fotógrafo partia então da sua experiência pessoal para ir apresentando alguns tópicos sobre o tema que dava mote à tertúlia. Definindo-se como um fotógrafo freelancer investido na realização de projectos de autor, garantindo assim uma maior liberdade criativa no seu processo de criação, guiou a plateia presente por parte do seu percurso. Desde muito cedo interessado no desenho, o gosto pela fotografia parece ter surgido apenas no seu 18º aniversário quando lhe foi dada uma máquina fotográfica de apenas 2 megapixéis.
Esta máquina parece ter sido no entanto mais que suficiente para criar entre Boto e a arte fotográfica uma sinergia que até ao momento não dá sinais de querer parar. Limitando-se a retratar a realidade numa primeira fase, o fotógrafo foi melhorando as suas capacidades através da experiência, sendo por isso um defensor (ainda que com limites) ao auto-didactismo. Porquê com limites? Parafraseando Boto, como em tudo, o auto-didactismo não deve ser encarado como um valor absoluto e intocável, sendo certo que a partir de certa fase pode atrasar a correcta evolução do fotógrafo, sendo por isso essencial investir na correcta formação, sendo que apenas esta permitirá, em princípio, suprir algumas das lacunas que o ensino próprio cria. Quer se opte pela formação ou por seguir a via do auto-didactismo, uma coisa é certa: serão sempre necessários tempo e paciência.
Em 2004 adquire uma máquina bridge, fazendo da fotografia um hobby mais sério. Qual MacGyver da fotografia, de forma engenhosa ia solucionando alguns dos problemas que as limitações da máquina lhe impunham, nomeadamente na fotografia macro que tanto apreciava na altura. De acordo com o próprio, nesta altura participava em cerca de 60 a 70 concursos por ano. A importância de participar em vários concurso, principalmente quando se perde? André Boto sugere que é toda uma escola que se cria, uma aprendizagem através da comparação com os vencedores e a percepção daquilo que os júris gostam. Ganhar é sem dúvida positivo, mas saber perder e tirar daí as conclusões certas não é menos importante.
Entre 2007 e 2008 junta-se ao mundo das reflexs com a aquisição de uma Canon 30D. A aprendizagem pela experiência continua, no entanto, com o seu curso em Beja terminado, André Boto parte para Lisboa, iniciando a sua formação na área da fotografia na Oficina da Imagem. Neste momento o fotógrafo começa a tentar já criar um estilo próprio, demarcando-se dos demais e procurando uma “imagem de marca” que o distinga dos restante. Nesta altura a fotografia digital começa também a oferecer todas as potencialidades através do uso da edição de imagem, criando-se, nesta primeira fase, uma realidade que poderia existir.
Retratos, pormenores, fotografia urbana e arquitectura foram algumas das áreas onde Boto foi trabalhando, numa clara curva ascendente de aprendizagem e consequente qualidade.
Será então em 2008 que André Boto inicia o seu projecto surrealista, provavelmente um dos que lhe proporcionou junto do público um maior reconhecimento. Partindo sempre de fotos tiradas por si, o fotógrafo propõe-se a tornar real, ainda que apenas em registo fotográfico, o impossível que o Homem sempre procurou. O processo de composição é demorado e delicado, mas os prémios que André Boto conquistou permitem-nos dizer que terá valido a pena. Num estilo semelhante, o seu projecto «Arquitectura Impossível» demonstra uma vez mais a vontade do fotógrafo de se insurgir contra os cânones e os paradigmas da realidade, sendo que tal insurreição torna-se apenas visível perante os outros graças à edição de imagem, da qual é acérrimo defensor.
Por estar de regresso à sua região, o jovem fotógrafo aproveitou ainda para partilhar uma das fotos que constará do seu próximo projecto e que certamente voltará a trazer o seu nome às luzes da ribalta. Natureza vs Homem é assim a ideia presente neste projecto que esperamos poder acompanhar em breve.
Para os que não puderam estar presentes, embora a captura de som tenha falhado em certa medida, poderão ver a gravação da emissão online que foi feita em tempo real no site http://www.ustream.tv/recorded/12914795, podendo ainda visitar o site do fotógrafo, em andreboto.com ou a sua página no Facebook.







Um bom retrato da tertulia do André Boto.