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[Crítica] Foge Foge Bandido pregou ao povo no Teatro das Figuras

E pronto, já só faltam cinco datas para que Manel Cruz guarde o projecto Foge Foge Bandido na gaveta. Depois de Faro e Portimão, nos passados dias 1 e 2, restam apenas Barcelos, Lisboa, Coimbra, Estarreja e Famalicão como os locais escolhidos para terminar – preferivelmente em beleza – a jornada que começou em 2008 com a edição limitada de «O Amor Dá-me Tesão/Não Fui Eu que Estraguei».

Criado a solo ao longo de qualquer coisa como uma década, Foge Foge Bandido está no entanto longe de ser um projecto solitário, sendo que mais do que nas colaborações presentes no álbum, é ao vivo que a força colectiva da criatividade se faz sentir, com uma banda que funciona como um coro de suporte em relação à força da voz de Manel Cruz, o Pregador.

Falamos de pregador como podíamos falar de profeta, um homem perfeitamente  normal que nos momentos certos usa da palavra para se transcender, realizando a transição ou transfiguração para uma figura imponente. Alternando entre momentos de doçura desconcertante e gritos de raiva, o concerto de Foge Foge Bandido no Teatro das Figuras foi um evento especial, um concerto em que foram exorcizados fantasmas do passado e o futuro não pareceu tão mau assim, apesar de sabermos que “a vida é esta merda”, como Cruz assinala na «Canção da Canção da Lua».

Ao contrário do esperado, a sala não esteve repleta, situação justificada pela crise, pelo preço dos bilhetes ou pela conjugação dos dois factores. Ainda assim, os lugares vazios não se fizeram notar, com o público presente a demonstrar o seu conhecimento e apreciação pela música, de «Tu tens de mudar» a «Uma historinha», sem esquecer «Diz-me se aprovas», a contagiante energia religiosa de «Eleva!» e as faixas de maior sucesso como «Borboleta», «Canção da canção triste» e «Um tempo sem mentira». Digamos simplesmente que os espectadores estiveram à altura dos músicos, aproveitando a janela de oportunidade que lhes foi dada para assinalar o seu apreço.

Pegando na pretensa aleatoriedade musical e fazendo dela a sua arma, o som de Foge Foge Bandido pode muito brevemente – como parece ser o plano geral de acção de Manel Cruz – vir a ficar limitado à audição do disco ou leitura da poesia, daí que ocasiões como esta em Faro, ou em Portimão, ou as que ainda estão para vir, sejam importantes para que se possa capturar ao vivo a energia e alma que o próprio Cruz colocou neste trabalho.

Não será certamente a última vez que Cruz subirá a um palco para nos dar uma versão de si mesmo, mas gostaríamos de presumir que não nos serão dadas muitas mais oportunidades para o ouvirmos e “conhecermos” de uma forma tão íntima e pessoal, porque se nos permitimos fazer uma suposição, esta é a de que Foge Foge Bandido lhe está tanto no âmago do ser como à flor da pele.

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Apreciador de música, cinema, livros. A bem dizer, apreciador de tudo um pouco. Co-criador e editor do projecto ilícito[mag]. Para mais sobre este indivíduo, visitem http://flavors.me/bmcn.

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