Mais do que o sucesso, o disco «Good Things» representa um ponto de viragem numa viagem relativamente curta de um artista que teve no seu primeiro registo uma incursão discreta pelo mundo do hip-hop. Com «Good Things», Aloe Blacc conseguiu uma aventura sólida pelo mundo da soul, reunindo junto de si uma certa unanimidade da crítica, que passou a ver nele o natural sucessor das doutrinas legitimadas por James Brown, Al Green e Marvin Gaye. Mais do que isso, trouxe-lhe uma música capaz de definir uma carreira e, no caso de Aloe Blacc, de o catapultar para as luzes da ribalta. Não que «Good Things» seja mais um daqueles discos que vale apenas pelo single, muito pelo contrário, mas ainda assim, mesmo os grandes álbuns precisam de um grande cartão de visita e «I Need a Dollar» cumpriu esse papel na perfeição.
E se à primeira vista Aloe Blacc teria tudo para com «Good Things» alcançar um papel de estrela global, a verdade é que, apesar da unanimidade junto da crítica, comercialmente, o seu sucesso ainda deve ser relativizado. Vindo de uma editora afastada das ditas majors e sem uma máquina de marketing forte por detrás, Aloe Blacc é, como já o apelidaram, um verdadeiro operário da soul, que economiza na estrutura da banda que o acompanha, obrigando-o a fazer os seus próprios coros e a assumir a postura de comercial no final dos concertos, encarregando-se ele próprio da venda de álbuns e merchandising variado.
No entanto, o seu curto percurso realizado pareceu suficiente para um público português que, com alguma antecedência, esgotou uma Aula Magna e o recebeu com o entusiasmo digno dos valores musicais que Aloe Blacc representa. Numa noite que começou com uma breve actuação da australiana Maya Jupiter – que passeou uma mescla de estilos que iam do hip-hop à soul com traços latinos a invocar as suas origens mexicanas – a entrada de Aloe Blacc fez-se ao ritmo do instrumental de «I Need a Dollar», como que a aguçar o apetite dos presentes.
Dinâmico em palco, exibindo permanentemente os seus passos de dança, Aloe conseguiu à segunda música, com «You Make me Smile», aquilo que muitos artistas lutam arduamente para conseguir no final: uma Aula Magna completamente de pé a ovacionar o artista, com a emoção à flor da pele. Porque um grande cantor de soul não se faz apenas de uma boa voz que impressione o ouvido alheio. Faz-se sobretudo da voz que fala directamente ao coração de quem a ouve. E Aloe Blacc sabe-o bem, tentando sempre enquadrar-se nos problemas da plateia que o encara, quer esteja a cantar problemas do coração ou, como em «Politicians» ou «I Need a Dollar», relatando problemas concretos da sociedade.
Num alinhamento que espremeu por completo o álbum «Good Things», importa destacar «Femme Fatale», numa roupagem completamente nova para o tema original dos Velvet Underground, «Miss Fortune» e «Loving you is Killing Me» a fechar.
No final as expectativas foram totalmente superadas, sem que para isso Aloe Blacc tenha tido que recorrer ao seu principal trunfo – «I Need a Dollar» não mereceu particular atenção na forma como foi executada – ficando nos presentes a sensação de que se assistia, naquele momento, à ascensão de um astro. Um astro daqueles que aprendemos a admirar através dos LP’s empoeirados que vamos encontrando nas prateleiras dos nossos pais.
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