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[Crítica] «Um Delicado Sentido de Equilíbrio», de Nuno Sousa

Mentiria se dissesse que não sinto desde há muito um grande fascínio pela Índia. Desde a leitura do clássico (pelo menos insiro-o nessa categoria) «Viagem ao Mundo da Droga» que aquele país, com as suas gentes tão características e com os seus tons laranja, faz parte do meu imaginário. E até há bem pouco tempo, talvez por culpa minha, esta era a única referência que tinha daquela realidade. E digo até há bem pouco tempo porque saiu ontem, dia 26 de Maio, um livro que me proporcionou uma nova visão daquelas terras do Oriente.

Chama-se «Um Delicado Sentido de Equilíbrio» e foi escrito por Nuno Sousa. O Nuno é um jovem que teve em 2010 uma oportunidade única, e que soube aproveitar: viver durante uns meses na Índia. Este livro é o reflexo dessa experiência, uma colecção de memórias escritas para um blogue, sendo que a ideia de um livro não era, na altura, uma preocupação. Para quem acha que isso pode representar um problema, até porque não foi feita qualquer alteração ao conteúdo dos textos, desengane-se: a escrita despretensiosa envolve ainda mais o leitor aproximando-o da realidade chocante mas ao mesmo tempo enriquecedora, que tanto tem de beleza cultural como de pobreza social, que o Nuno vivia.

Por detrás do lançamento deste livro está a Juicy Records, projecto editorial que até aqui se tinha dedicado inteiramente à música, mas que mais uma vez arriscou e confrontou o conformismo e as catalogações. Emanuel Matos, responsável pela editora, teve a seu cargo o prefácio da obra onde se resume de certa forma aquela que é a filosofia por detrás desta publicação: “Há situações nas vidas de todos nós que, por mais planeadas que sejam, tomam contornos imprevisíveis, e há outras que, por mais imprevistas que sejam, acabam por encaixar numa espécie de ordem natural, em que tudo acaba por fazer sentido no fim. O desafio ao fim de contas acaba por ser aprendermos a lidar com tudo aquilo que a vida nos atira, saber agarrar as oportunidades com todas as forças e não as deixar cair no vazio, e saber lidar connosco próprios e com os outros pelo caminho.”

O livro, mais do que um relato, transporta-nos para um tempo passado, para junto do Nuno, desde o momento da sua partida do Porto até ao seu regresso a Portugal. Num crescendo de intensidade e introspecção as páginas devoram-se a uma velocidade arrebatadora e deixamo-nos emergir numa realidade que não a nossa e que, na maior parte dos casos, conhecemos apenas dos documentários e dos filmes. Mas neste caso, e não consigo deixar de acentuar esta mensagem, mais do que sermos tratados como espectadores, somos puxados para as aventuras, que passam a ser também um pouco nossas: rimos com a descrição dos holandeses que querem andar de mota sem nunca terem antes pegado num veículo semelhante, sentimos a tensão no ar quando em Kathmandu os “vermelhos” se reúnem e manifestam massivamente exigindo a queda do governo e até mesmo a emoção com que o Nuno regressa a Dheli para escrever o capítulo final de uma história que tinha também ali começado.

A acompanhar os textos encontram-se ilustrações feitas pelo próprio autor, numa representação da Índia que espelha a área de estudos do mesmo: a arquitectura. Instado a comentar este processo, Nuno revela que todos os desenhos que podemos ver no livro foram capturados com base no “modelo original”, tendo por vezes ficado mais de 45 minutos parado no mesmo sítio, obrigando os seus companheiros de viagem a ocupar o tempo com outros afazeres. Noutras partes do livro somos presenteados com letras de músicas que fizeram parte da banda sonora desta viagem.

Tudo isto, assim como a evolução na escrita e as alterações no tom usado que se notam ao longo do livro e que ajudam a demarcar os textos mais em jeito de diário dos que se revestem de uma carga reflectiva mais profunda, sendo que por mais que uma vez o autor chega mesmo a despir as suas vestes de homem ocidental, deixando-se envolver pela mística do local. Como ele próprio refere aquando da sua ida ao Templo Dourado, quase se converteu. No fim da leitura ficamos certos que este livro não nos relata apenas uma viagem à Índia, mas também uma viagem pelos cantos do espaço mais íntimo do autor que acaba por, no meio do caos das grandes metrópoles indianas, ver-se obrigado a encontrar o seu “delicado sentido de equilíbrio”.

Na senda daquela que é filosofia por detrás da editora e como resultado da experiência vivida pelo autor do livro durante a sua estadia na Índia, na venda de cada livro 1€ do lucro será doado ao Akshaya’s Helping in H.E.L.P. Trust. Este é projecto de solidariedade social que vai muito além do comum “dar de comer a quem tem fome” e cujos resultados práticos valeram ao seu fundador, Narayanan Krishnan, o reconhecimento pela CNN como um dos “TOP 10 CNN HEROES 2010” na categoria “Protecting the Powerless”.

O livro encontra-se à venda através do site da Juicy Records ou da Amazon. Nuno Sousa, o autor, estará ainda presente em duas apresentações oficiais do livro, a decorrer entre 9 e 11 de Junho, nas cidades de Lisboa e Porto.

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A narrow kid with a narrow mind!

1 comentário

    Quando me embrenhei num amontoado de folhas soltas ainda por editar, senti-me transportada para uma dimensão transcendental, simétrica e assimétrica, paradoxal e lógica……..
    Saboreei cada página, cada frase, cada letra e num estado quase zen, os sentidos caoticamente confundidos, tacteei paredes rugosas, observei rostos sulcados pela vida, vi crianças descalças mas, sobretudo, cheirei, provei pedaços de um todo-nada. Os cheiros, principalmente os cheiros, violaram-me a pele com o à vontade de quem se sente em casa……….
    Simplesmente delicioso este Delicado Sentido de Equilíbrio, tão desequilibrado quanto a essência humana ocidental em contraste com um mundo de contrastes equilibrados!

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