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Festival MED 2011: Dia 1 – Contra a crise, dançar, dançar.

É sabido que 2011 tem sido um ano repleto de peripécias para Portugal. A crise atingiu a nossa economia forte e feio, forçando o regresso dos senhores do FMI ao país. O Primeiro-ministro deixou de o ser, mas o seu lugar já foi ocupado por outro. Felizmente, há coisas com as quais podemos continuar a contar: o Verão no Algarve ainda vai sendo quente, ainda há quem pense que o Último a Sair é um reality show a sério, e, principalmente, por estas alturas tem lugar na zona histórica de Loulé o já mais que conhecido Festival MED.

A celebrar o seu 8º aniversário, este festival tornou-se ponto obrigatório de passagem para os fãs de world music. Vindas um pouco de todo o país (e até mesmo do estrangeiro) milhares de pessoas acorrem a Loulé para este evento. Qualquer que seja a forma escolhida (há quem opte por vir de Aveiro de Scooter) o importante é chegar e aproveitar os serões que os inúmeros projectos musicais que passam pelos cinco palcos montados para o efeito proporcionam.

Mas engane-se quem pensa que a essência do MED reside apenas nos seus concertos. Tal formato já há muito deixou de fazer sentido para os frequentadores de festivais e são poucos os que investem apenas na música. Sim, é verdade que esta é o prato principal, mas como qualquer luxuosa refeição que se preze, os acompanhamentos são igualmente importantes. O MED não é alheio a este fenómeno e a cultura, gastronomia, artes performativas e outras expressões artísticas são uma importante componente a ter em conta.

Na Gastronomia os sabores do mediterrâneo são os grandes senhores do festival. Além da óbvia culinária portuguesa, presente em muitos dos espaços espalhados pelo recinto, também Espanha, Grécia, Marrocos, Egipto ou Itália estão representados. Quem também está de volta é o Chef Chakall, que volta a ter um espaço próprio, – ou pelo menos assim o indica a publicidade junto ao seu restaurante, pois na hora em que passámos por lá, o Chef não se deixava ver – permitindo aos visitantes apreciar alguns dos pratos elaborados “ao vivo e a cores”.

Apesar da crise, são ainda muitos os que optam por não olhar a despesas por estes dias, experimentando o que de melhor o MED tem para oferecer no que diz respeito à comida, complicando a tarefa de se achar um local vazio à hora de jantar.

As artes plásticas voltam também a estar presentes nesta edição do Festival. Seguindo a tradição de convidar um artista português para expor, David de Almeida é o artista convidado deste ano. A sua mostra chama-se “MED” e pode ser vista na na Galeria de Arte do Convento de Espírito Santo. Nos claustros do Convento Espírito Santo está ainda patente a exposição “Entre Margens” de Vasco Silva Lopes, uma mostra de visões insulares e ribeirinhas de Cabo Verde, Guiné-Bissau e Moçambique. Espalhadas por todo o recinto estão ainda várias manifestações de street art, silhuetas trabalhadas por diversos artistas plásticos.

E claro, a música, ou como já dissemos, o prato principal deste festival. São mais de 40 bandas espalhadas por 5 palcos. A crise aqui fez-se também sentir, mas apenas na quantidade, já que a organização fez por manter a qualidade dos artistas, que com créditos reconhecidos ou a dar os primeiros passos, vão dando que falar no mundo da música menos comercial.

Este ano, a complicada tarefa de estrear o festival coube aos Quartetum. Este quarteto (quem diria que eram quatro) de cordas fez-se ouvir no interior da Igreja Matriz, onde presenteou os que ali se deslocaram com algumas obras de Mozart. Sem dúvida uma tarefa ingrata a de inaugurar qualquer festival, mais ainda quando se trata de música clássica e se toca num dia de trabalho às 19h30. O desempenho, no entanto, pareceu-nos irrepreensível, numa espécie de calma antes da tempestade – sendo que neste caso, a tempestade é algo de positivo.

Os Quartetum abriram o Festival MED 2011 com um concerto na Igreja Matriz

Como o concerto seguinte era senão passada uma hora, aproveitou-se para dar nova volta pelas ruelas apertadas da zona velha de Loulé. O sol, ainda que lentamente, começava a esconder-se e cada vez mais se sentia as ruas a ganharem vida. O facto de no dia seguinte ser feriado contribuiu para que mais algumas pessoas tenham decidido sair de casa nesta noite quente de Verão.

Perto das 20h30, foi a vez do projecto Nobre Ventura subir ao palco (o do Arco). A jogar em casa, Marco Cristovam trouxe uma sonoridade simples mas eficaz ao festival. Descrita como uma viagem introspectiva, a sua actuação conta com o auxílio de textos e poemas em inglês e português, acompanhados pelas sonoridades da guitarra folk. A verdade é que, por vezes, menos é mais e Nobre Ventura é uma boa prova disso. Pode não surpreender, mas também não desilude.

Nobre Ventura

Passava pouco das 21h00 quando os farenses Migna Mala subiram ao palco Bica. Depois de algumas voltas pelo recinto em busca deste palco (o talento para ler mapas não é dos maiores por aqui e nem sempre as tabuletas são tão claras como desejável). Tarefa complicada a de escrever sobre este projecto, ainda assim tentaremos descrever da melhor forma a experiência. Fechem os olhos … imaginem um tempo distante e um local desconhecido. Imaginem uns cânticos numa língua ancestral que não conhecem, acompanhados por uma música experimental, uma espécie de ritual sonoro com efeitos mágicos. Não é sem dúvida um projecto que agrade a gregos e troianos, mas pareceu mover um conjunto considerável de pessoas que estavam junto àquele palco para algo mais do que jantar ou descansar os pés. Ainda assim, e porque o tempo não perdoa, ainda mesmo antes do fim do concerto dos Migna Mala era tempo de rumar ao Palco Castelo.

Um espaço longe de estar cheio acolhia Lula Pena. Esta cantora, guitarrista, compositora e intérprete portuguesa despiu-se de tudo o que é acessório, apresentando-se sozinha com a sua guitarra em palco, recreando os Actos que compõem o seu mais recente álbum, «Troubadour». Lula Pena encheu o palco de si mesma, com uma voz incomparável, num registo intimista definido por uma marcada descarga emocional, em que a guitarra era uma extensão da sua alma. Sem dúvida uma aposta longe de consensual do ponto de vista comercial, mas que certamente agradou a muitos dos fãs de Lula Pena e do seu “fado revisitado”.

Lula Pena

Por falar em Fado, este voltou a fazer-se ouvir no festival MED, desta vez no palco Cerca. Pouco passava das 21h45 quando António Zambujo subiu ao palco. Sem estar cheio, houve ainda assim uma afluência considerável ao palco Cerca, num público composto não apenas à base de curiosos, mas também de fãs do músico que o acompanham em algumas das suas letras. Verdade seja dita que António Zambujo, embora tenha actuado pela primeira vez no MED, não é estranho a estas andanças dos concertos, o que se revelou no à vontade e na segurança em palco que demonstrou, assim como na sua comunicação com o público.

Nome incontornável do chamado novo Fado – novo em geração e na forma como é executado – António Zambujo distancia-se assim de alguns tradicionalismos estilísticos, abraçando a lusofonia como base da sua música. Alentejano de gema, natural de Beja, canta o Fado como se de cantares alentejanos se tratasse, mantendo sempre presente uma certa ginga que nos remete em certas canções à música popular brasileira de Vinícius e Chico Buarque.

Com quatro álbuns na bagagem, o fadista de Beja deixa transparecer as suas outras paixões, e prova disso é o sorriso constante que ostenta nos lábios enquanto toca e canta a sua música. Demonstrando que é possível reinventar o fado sem o diminuir, Zambujo acaba por ser uma raridade em palco, especialmente se pensarmos que o fado, apesar de momentos de descontracção e maior leveza, raramente é caracterizado como algo que faça sorrir aqueles que o cantam. António Zambujo toca o fado com alegria, e o piscar de olho à MPB não interrompe essa ligação especial, muito pelo contrário.

António Zambujo

Enquanto o Palco Cerca acolhia a portugalidade do Fado, no Palco Arco, os sons da percussão dos Instinct Baroudeur aqueciam os corpos e a alma dos visitantes do MED. Provando que é possível fazer música apenas com instrumentos de percussão, sem que esta se torne aborrecida ou incómoda, este grupo vindo da Bélgica recupera as tradições musicais africanas, num espectáculo de música e dança cheia de cor e energia. Fica a ideia de que talvez  fossem merecedores de um maior destaque.

Não muito longe dali, no Palco Matriz, começava por volta das 23h00 um dos concertos mais aguardados da noite: JAADU – Faiz Ali Faiz & Titi Robin. Este duo improvável encheu o espaço junto ao palco Matriz, oferecendo às pessoas que ali se deslocaram para os ver uma fusão entre culturas, veiculadas quer no canto de Faiz Ali Faiz, mestre paquistanês do canto Qawalli, quer na guitarra do francês Thierry (Titi) Robin. Com provas mais do que dadas da sua qualidade (o álbum do projecto com o mesmo nome «Jaadu (Magic)» ganhou em 2010 o prestigiado prémio da revista inglesa Songlines como “Best Album of Cross-Cultural Collaboration”) este projecto, apesar do início lento que pode ter demovido alguns menos perseverantes, depressa se revelou portador de uma energia mística que tinha tanto de estimulante como de contagiante.

Um pouco por toda a parte a música levou os espectadores a entrar numa espécie de transe, transportados pela harmonia conseguida entre os dois artistas que se encontram neste projecto, levados a experimentar uma euforia quase religiosa. Uma agradável surpresa nesta primeira noite de MED.

Faiz Ali Faiz

E talvez porque não tenha sido o único a ser surpreendido, foi um palco Castelo quase vazio o que acolheu o cantor português Marrokan. Com a sua musicalidade a ir beber ao fado, morna, soul, reggae e à world music, o fundador da banda Manif3estos apresenta-se agora a solo. A verdade é que Marrokan faz bem aquilo a que se propõe, no entanto, o desgaste do género e a incapacidade de trazer algo de novo ao mesmo, fazem de Marrokan um artista que não fomenta paixões junto da vasta maioria daqueles que visitam o MED.

Logo ali ao lado, o palco Cerca preparava-se novamente para fechar mais uma noite de MED. Agora com uma massa humana bem mais composta, foram os Muchachito Bombo Infierno os responsáveis pelo encerramento desta noite. Não sendo virgens no que diz respeito ao MED, (já cá estiveram em 2008) este grupo vindo de Espanha, liderado por Muchachito sabe como entreter uma multidão. Talvez o mentor deste projecto tenha adquirido essa capacidade nos tempos em que tocava nas ruas, munido apenas de uma guitarra e de um chapéu com o qual recolhia algumas moedas no fim da sua actuação. De qualquer forma, onde quer a que a tenha aprendido conseguiu mantê-la.

Hoje, já não depende das esmolas e há quem pague bem para o ver. Contudo, Muchachito não se comporta como uma estrela que se acomoda com o seu status, mas antes parece esforçar-se genuinamente por conquistar cada uma das suas plateias. Aproveitando para promover o seu terceiro álbum, editado durante o ano passado, o grupo espanhol começou forte e soube manter a energia durante todo o seu espectáculo. A música, impossível de definir com apenas um género, é uma mistura orgânica daquilo que melhor a música espanhola tem, com uma pitada rock, assim como tantos outros géneros musicais. Numa análise musical e comercial da coisa, esta foi uma aposta segura que certamente foi ganha por parte da organização, tendo o grupo liderado por Muchachito oferecido um fechar de ouro a esta maratona musical.

Com a música no recinto a diminuir a sua potência e as pessoas a começarem a dirigir-se para suas casas, estava oficialmente encerrada a primeira noite de MED. Contudo, se o Carnaval é 3 dias, o MED são quatro e o Ilícito estará de volta amanhã com mais novidades sobre o festival.

Muchachito Bombo Infierno

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