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Festival MED 2011: Dia 2 – mais do que World Music

Ao contrário do que seria de esperar, o Algarve ainda não é um deserto. Contrariando a imagem que muitos terão da região, como apenas mais um oásis onde decidem passar algumas semanas no ano, o Reino dos Algarves tem muito mais para oferecer para além das praias, dos campos de golfe ou das mulheres bonitas.

É certo que os dias quentes e as noites frias – clima próprio de um deserto – aparentam ser cada vez mais frequentes no sul de Portugal, mas pelo menos ao longo dos quatro dias do Festival MED tudo o resto é irrelevante. O destaque vai para a cultura, para a gastronomia, para uma forma de vida diferente, mais pacata, mais ligada à vida e à humanidade.

Não é um evento do outro mundo, é sim um mundo diferente daquele a que estamos habituados, partilhando apenas com uma mão cheia de eventos e festivais nacionais um ambiente particular e distinto da restante maioria de eventos que açambarcam o Verão nacional.

Depois de uma primeira noite quente e rica em boa e diversa música, o MED voltou à carga para um segundo dia em que todos os olhos e ouvidos estavam virados para a presença de Seun Kuti & Egypt 80. Filho mais novo de Fela Kuti, mestre do Afrobeat, e irmão de Femi, que deu um dos melhores concertos da edição de 2010 do MED, Seun Anikulapo Kuti prometia assim grandes coisas, numa noite que começou ainda assim de forma mais suave e distinta.

Assim, nesta noite de quinta-feira coube a Josué Nunes, virtuoso da guitarra clássica, a tarefa de dar inicio à ordem de trabalhos. Talvez pelo facto de ser no interior da Igreja, ou derivado da hora a que acontece, estes concertos parecem sempre, pelo menos em comparação com os outros, menos frequentados. No entanto, dada a particularidade de se tratar de um concerto inserido na iniciativa MED Clássico, tal facto acaba por se tornar numa vantagem, proporcionando aos amantes deste género musical uma experiência musical intima e satisfatória. Sobre a prestação de Josué pouco há a dizer. Quem conhece o seu invejável currículo sabe o que esperar e a verdade é que certamente não saiu da Igreja Matriz decepcionado.

Ali perto, no palco Arco, era a vez dos Toca Tintas darem a conhecer o seu projecto. Com um repertório composto apenas por versões de outros artistas, os Toca Tintas percorreram alguns dos grandes clássicos da música popular portuguesa, para gáudio dos turistas mas também dos portugueses que estavam junto ao palco. Afinal de contas, é sempre bom ouvir umas músicas que todos conhecemos, ainda para mais numa voz como a que aqui dava vida às músicas dos outros.

Continuando no feminino, mas agora num palco diferente, foi o projecto Godai o escolhido para dar música aos que estavam junto do palco Bica. Este projecto de génese algarvia é um bom exemplo do que o MED significa: influências de vários estilos musicais, destacando-se o rock e o blues. Talvez pela dificuldade de se definirem num só género, o conceito que melhor os define será “projecto de fusão”. A voz de Inês Graça (responsável também por uma das guitarras), encanta o público, qual sereia, obrigando-nos a aproximar do palco e a ficar mais um bocado. Mas o MED não pára … e nós também não.

Godai Project

Em direcção ao palco do Castelo fomos encontrar uma banda que fez questão desde o início de sublinhar a sua ligação ao Algarve, sendo inclusive presença habitual no Festival em edições anteriores. Exibindo trajes peculiares e um conceito global não muito longe do mundo circense, os The Gilbert’s Feed Band extravasaram energia. Uma mescla entre os sons tradicionalmente ligados à região dos balcãs e a animação habitualmente associada a big bands do continente sul americano, a música deste colectivo foi como uma injecção de boa disposição e despreocupação juvenil nos ânimos dos muitos festivaleiros que ouviam a sua música ao vivo.

Paralelamente começava no Palco Cerca a actuação de Sean Riley & the Slowriders. Rock e blues em boa medida protagonizaram a actuação da banda leiriense. A apresentar actualmente o seu terceiro disco, «It’s Been A Long Night», Sean Riley & the Slowriders são já donos de um certo estatuto junto do público nacional, fruto de uma mão cheia de singles de sucesso retirados tanto de «Farewell» como «Only Time Will Tell», os seus dois primeiros registos. Este reconhecimento por parte da audiência valeu-lhes uma plateia muito bem composta e disposta a aplaudir os seus esforços, reconhecendo o mérito daquela que já foi apelidada de “banda mais americana de Portugal”.

 

Sean Riley

Tocavam ainda os Slowriders as notas finais de «Harry Rivers», e já o burburinho se fazia sentir junto do Palco Matriz, onde uma massa humana assinalável esperava a magia negra do mais novo membro do clã Kuti. Alguns minutos depois, os 14 elementos que compõem o colectivo Egypt 80 entraram em palco com confiança, um misto de músicos da velha guarda, contemporâneos do mito e patriarca do Afrobeat Fela Kuti, e algum sangue novo, continuando a tradição da cultura musical africana.

O aviso, esse vinha inscrito nas camisolas envergadas por alguns membros da banda: “100% Afrobeat. No Bullshit.”. Alertado o público, que certamente não ia desprevenido para tal facto, coube ao colectivo introduzir a figura principal em palco. Alguns minutos depois Seun Anikulapo Kuti tomou o seu lugar em palco, entrando em força numa rendição de «Zombie», clássico do Afrobeat celebrizado por Fela. No final justificou a escolha: “I always start with this song, to show respect for the man!”.

Homenagem prestada, o espectáculo prosseguiu em tons políticos, como não podia deixar de ser. A demanda por uma África independente e livre das amarras do desenvolvimento ocidental em «Slave Masters», e a necessidade de legalização de um determinado produto herbáceo em «The Good Leaf» marcaram ainda o concerto do homem que tem nos genes um dos bens mais preciosos de África, a sua música. No final não houve direito a encore, não que fosse preciso ou que ainda houvesse mais energia para debitar. De Seun Kuti ficámos com um dos grandes concertos da história do Festival MED.

Seun Kuti

E porque isto no MED as escolhas são quase que regra imposta àqueles que ao recinto se deslocam, ainda mal o concerto de Seun Kuti estava a aquecer e já os riffs das guitarras d’Os Golpes se faziam sentir no palco do Castelo. Perante uma surpreendente moldura humana, tendo em conta a sobreposição ao nome grande da noite, os Golpes foram bem recebidos pelos visitantes do MED, conhecedores de alguns dos singles da banda – com particular destaque para o mais recente «Vá lá Senhora», que no disco «G» conta com a participação especial de Rui Pregal da Cunha – pelo que a sua sonoridade não era novidade para ninguém, o que foi visível na forma como o público ia reagindo efusivamente dançando e cantando boa parte das letras.

Algures entre o new wave da década de 80 e o pop/rock português, Os Golpes fazem do português, enquanto forma de expressão, uma imagem de marca, fazendo de resto parte de uma vaga de artistas que tende cada vez mais a valorizar a lusofonia em detrimento da cultura anglo-saxónica, ajudando a desmistificar um pouco uma ideia algo implantada de que o inglês seria uma porta aberta para atingir um público mais abrangente. Os Golpes são exemplo do contrário, e tendo em consideração a plateia que tinham à sua frente, o público português vai demonstrando o seu apoio a esse ponto. E se «Vá lá senhora» recolheu um dos momentos altos da noite, a versão de «Paixão»,clássico dos Heróis do Mar, não ficou nada atrás.

Os Golpes

Ora se para os mais puristas «Os Golpes» ou os próprios «Sean Rilley and the Slowriders» possam ser escolhas questionáveis no cartaz de um festival de world music, a verdade é que a julgar pelo número de pessoas que fizeram questão de marcar presença em ambos os concertos, não restam dúvidas que foram duas apostas ganha por parte da organização. Perante a crise financeira que o país atravessa, os cofres públicos agradecem e a identidade do país, muitas vezes questionada, também.

A encerrar a noite, o Palco Cerca foi de Magnifico e sua banda, que da Eslovénia trouxeram a animação e os ritmos alegres da Europa central. Munido de um fato branco qual John Travolta em «Saturday Night Fever», Robert Pesut, ou Magnífico e a sua música não nos captaram particularmente a atenção, sendo que nesta altura do campeonato é necessário que um agrupamento de gipsy punk ou turbo folk tenha algo mais que o faça diferenciar das muitas dezenas de bandas que se movem nos mesmos meios musicais. Não nos deslumbrou por aí além, mas mentiríamos se não disséssemos que por esta altura o cansaço já se fazia notar em nós. Ainda assim, o jeito gingão e a fusão musical deste showman pareceram agradar à maioria do público presente, que se manteve em frente ao palco até bem depois da última nova ter sido tocada.

Magnifico

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Apreciador de música, cinema, livros. A bem dizer, apreciador de tudo um pouco. Co-criador e editor do projecto ilícito[mag]. Para mais sobre este indivíduo, visitem http://flavors.me/bmcn.

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Software Engineer @ Movensis com mestrado em Sistemas de Informação Empresariais no Instituto Superior Técnico. Fascinado por fotografia, música, cinema e bem...por tudo o que se escreve por aqui. Fundador e editor do ilícito[mag] Mais aqui

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1 comentário

    Uma possibilidade diferente de participar no MED! Sobretudo para aqueles que não têm possibilidade de o vivenciar in loco…..

    É agradável caminhar sob o olhar atento deste grupo de entusiastas que, para além de amarem a música e a cultura, são orgulhosos da terra que os viu nascer. Parabéns !

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