Por esta altura há 30 anos, iniciava-se em Faro aquela que se tornaria uma das maiores “tradições” do verão algarvio: a Concentração Internacional de Motos de Faro. E se a primeira edição não recebeu mais do que 200 motards, a 30ª edição da Concentração que este ano se realizou preparou-se para receber cerca de 30 mil visitantes.
O ambiente único que se vive a cada ano que passa, apesar do crescente número de visitantes, a vasta oferta musical, as condições meteorológicas convidativas, entre tantos outros factores, fizeram com que esta edição fosse uma aposta ganha, tendo a organização anunciado um número de inscrições recorde, contabilizando-se à tarde do segundo dia de festa, cerca de 30 100 pessoas inscritas. José Amaro, presidente do Moto Clube de Faro, refere que o recorde anterior tinha sido estabelecido em 2001, na celebração do 20º aniversário da concentração.
A “fauna”, essa é tão diversificada quanto se possa imaginar. Homens e mulheres de toda a Europa, de todas as profissões, de todos os estratos sociais, cores e religiões congregam-se no Vale das Almas durante 4 dias com um único propósito: celebrar os veículos de duas rodas. Afinal de contas, são as motos o elemento agregador deste evento que se tornou já uma Meca para os motociclistas europeus. Mas encontramos apenas motociclistas na Concentração? Apesar da natureza do evento a resposta será não. Apesar de não se tratar de um festival de verão, a Concentração é também um evento aberto a simples curiosos e apaixonados pelas motas, mas que não tenham ainda abraçado de corpo e alma este fenómeno.
Mas, qual a fórmula para o sucesso? Sem querer revelar segredos (já que são estes a alma do negócio) podemos constatar que a localização privilegiada onde a concentração se realiza é sem dúvida um factor importante. No entanto, tudo no recinto é pensado ao pormenor para acolher os milhares de motards que se deslocam anualmente ao evento, pelo que a preparação do mesmo começa semanas antes. Tudo isto é possível graças à colaboração de voluntários que, antes, durante e depois da concentração, se esforçam para que tudo possa corra pelo melhor. Isabel Dias, natural do concelho de São Brás de Alportel, é uma das muitas voluntárias que durante os dias da concentração ajuda a matar a sede aos motards. Chegada à concentração pela mão de uma amiga, explicou ao ilícito o porquê da colaboração no evento: “Estive cá o ano passado como visitante e gostei muito do ambiente. E como uma amiga minha que cá esteve a colaborar disse que o ambiente entre os voluntários também era muito bom e a organização era muito atenciosa, decidi vir … afinal não custa nada!”.
DENTRO DO RECINTO
A existência de zonas privilegiadas de convívio como a zona Oásis, é também, como se pôde verificar pela sua elevada procura, uma importante aposta da organização. O tempo quente levou mesmo a que alguns ignorassem o aviso de que não seria aconselhável tomar banho naquele pequeno lago improvisado. Para os que optam por respeitar a sinalética, existe sempre a opção de se sentarem nas cadeiras de praia ou desfrutarem da sombra proporcionada por uma tenda gigante, onde a animação foi constante, quer tenha sido garantida pelos DJ’s de serviço, quer por alguma das bandas que subiram ao palco da tenda, uma espécie de palco secundário da concentração.
A “feira” presente na concentração é também uma boa forma de passar algum tempo. Tatuagens, coletes, parafernália motard, roupa militar ou até mesmo artesanato africano – estas são apenas algumas das coisas que podiam ser encontradas à venda naquele espaço. Além das vendas, algumas associações ou grupos de motards aproveitam este espaço para divulgar o seu projecto. Foi o caso do grupo de Motards cristãos – que por esta altura ofereceram até um exemplar da Bíblia a todos os que se deslocaram até ao seu espaço. Bom exemplo da diversidade que podemos encontrar nesta concentração, é o facto de apenas a alguns metros do grupo de motards cristãos podermos encontrar os Hell’s Angels. Esta convivência saudável entre grupos distintos mas com uma ideal comum – o ideal motard – é sem dúvida um dos motivos para o sucesso da Concentração.
Não muito longe dali, a Custom Farm e o Bike Show – a celebrar a sua 20ª edição – atraíam também muitos visitantes. Motas mais ou menos trabalhadas a fazer lembrar os trabalhos da equipa de Orange County Choppers mostravam que, apesar da fama do programa, também existe concorrência de peso por terras lusas e europeias.
Novidade este ano foi a existência de um bar suspenso. Esta plataforma içada por um guindaste, onde não faltou a bebida e a música, foi muito procurada pelos mais aventureiros – ou pelo menos por todos para quem as vertigens não eram um problema – que quiseram aproveitar a vista a 40 metros de altura, sob o Vale das Almas.
Além destes espaços, existem também os “parques de estacionamento” que acabam por se tornar autênticas “montras da vaidade”. São milhares de motas que puderam ser vistas e apreciadas pelos amantes das duas rodas. Nestes espaços, e visto que se trata apenas de parques de estacionamento, podemos encontrar motas das mais variadas formas e feitios, capazes de agradar a todos os gostos. Scooters, Motos de duas, três e quatro rodas, com mais ou menos adereços “pousam” estáticas para as fotografias tiradas para quem quer levar uma recordação do momento.
O PALCO PRINCIPAL
Não há dúvida que a Concentração não pode ser confundida com um comum festival de verão, nem a organização o pretende. No entanto, não se quer com isso dizer que a música não tenha um papel importante e que todas as noites o palco principal concentre à sua volta milhares de pessoas.
E a música começou desta vez logo na quinta-feira com nomes de peso. Coube aos farenses Mindlock a inauguração do palco, honra mais que merecida, não fossem eles agregadores de qualidades tão especiais para o efeito: a qualidade do som que praticam, serem da região e o gosto pelas motas dos elementos da banda. Talvez por terem começado a tocar mais cedo que o indicado em horários que tinham sido disponibilizados, não foi senão passadas duas ou três músicas que o público se compôs. Não obstante muitos estarem ali para ver as estrelas da noite – os Iron Maiden – como o número de t-shirts no recinto bem o indicava, a verdade é que os Mindlock conseguiram justificar o porquê de terem já sido considerados uma das grandes promessas do Metal nacional, tendo conseguido cativar as pessoas com os seus riffs pesados e com a sempre dinâmica presença em palco do vocalista. Durante a sua actuação, onde desfilaram alguns clássicos da banda, mas principalmente faixas do último álbum, foram muitos os headbangers que se converteram ao metal dos Mindlock.
Tinha o sol acabado de pôr-se quando do palco se ouviram os primeiros sons a dar conta da entrada em palco da banda da noite – os Iron Maiden. E que melhor forma de se iniciar uma data comemorativa, senão com uma banda mítica? Os que ainda não se tinham rendido ao som dos Mindlock ou que tinham deixado a área junto ao palco para restabelecer energias, correram literalmente para junto das colunas de onde a música saía, preparando-se para um inicio de concentração apoteótico. E assim foi, com a entrada da banda em palco houve gritos, bandeiras no ar, muitos “devil horns”. Num concerto onde foram revisitados clássicos como «The Trooper», «Blood Brothers», «Fear of the Dark», «The Number of the Beast» e «Hallowed Be Thy Name», interpolados com algumas faixas mais recentes da banda, entre fãs e meros apreciadores, não houve quem não se rendesse ao heavy metal da Dama de Ferro. A empatia entre público e banda foi também uma constante, não tivessem os Iron Maiden uma relação privilegiada com o Algarve. O motivo dá pelo nome de Eddie’s Bar, um bar dedicado à banda em Santa Bárbara de Nexe, propriedade de Steve Harrys (baixista da banda) e que durante anos foi dirigido por Manuel ‘Manu’ da Silva, membro do Moto Clube de Faro falecido em 2005, a quem foi dedicada a presença dos Iron Maiden na Concentração.
Ainda de realçar no concerto de Iron Maiden a importância dos elementos cenográficos em Palco, tendo a plateia sido presenteada com aparições do conhecido símbolo da banda, o Eddie, quer sobre a forma de uma cabeça gigante montada sobre o palco, quer com uma figura que surgiu mesmo em palco tendo até pegado numa guitarra para tocar uns acordes. Também o Diabo nos deu um ar da sua graça quando invocado através da música «The Number of the Beast». No geral, pormenores que justificam a presença de Iron Maiden na concentração e que fazem com que tenha valido a pena, quer para quem viu como para quem organizou, o preço a pagar.
Terminado o concerto, não indo ainda a hora muito avançada, foram muitos os que ficaram pelo recinto, aproveitando para repor energias, até porque este era apenas o primeiro dia da concentração.
No segundo dia, sexta-feira, o palco só conheceu actividade quando o sol já havia dado lugar a uma noite amena de Julho. Pouco passava das 21:30 quando os britânicos Hells Bells subiram ao palco. A sua actuação consiste num puro revivalismo da banda AC/DC, não pretendendo inovar, mas antes prestar tributo aos australianos. Numa espécie de Best Of ao vivo, o público dançou ao som de clássicos como Back In Black, You Shook Me All Night Long, T.N.T e, como não podia deixar de ser Highway to Hell. De realçar a presença em palco de um dos guitarristas, cujas semelhanças com o original membro da banda AC/CD provocaram o entusiasmo no público – principalmente o feminino, presenteado com um strip desse elemento.
Por falar em striptease, finda a actuação dos Hells Bells foi o momento do show surpresa, que acaba por ser apenas surpresa para quem nunca foi à concentração. O espectáculo esteve a cargo da mesma equipa do ano passado, proporcionando uma performance que vai muito para além do vulgar striptease, com elementos de dança e ginástica rítmica. É certo que muitos não terão notado nesses elementos, tais eram os atributos das dançarinas, mas nós na ilícito[mag] gostamos de promover as expressões artísticas e a dança é isso mesmo. A verdade é que através de vários temas, entre sexta e sábado à noite, os shows de strip valem, não apenas por si, mas também pela distracção que proporcionam entre os concertos de música.
Depois deste primeiro “show surpresa”, foi a vez dos “nuestros hermanos” Mägo de Oz subirem ao palco. Não tendo certezas sobre a ordem do fenómeno causa-efeito, trazer bandas espanholas à concentração é sempre motivo de alegria para muitos, tal é a quantidade de espanhóis que participa neste evento. Com mais de duas décadas de existência e inúmeros discos lançados, a banda mostrou o porquê de terem conseguido alcançar o patamar que alcançaram junto dos fãs das sonoridades folk/power metal, com a particularidade de cantar na sua língua natal. Num claro piscar de olho aos portugueses que também estavam presentes, o baterista e vocalista entraram em palco com uma bandeira portuguesa em mãos, cativando assim um público que, à partida, talvez pudesse estar menos receptivo para o seu concerto. Não sabemos ao certo se foi apenas isso, mas sem dúvida que resultou – durante o concerto portugueses, espanhóis e até outros dançavam embalados pelas melodias dos Mägo de Oz.
A tarefa de encerrar o segundo dia de Concentração coube aos algarvios Iris. Com um início de concerto que deixou transparecer os anos de carreira de Domingos, o concerto parecia destinado a não conseguir manter a animação que as bandas anteriores tinham deixado no ar. No entanto, a experiência levou a melhor e com a primeira cover de uma música popular portuguesa os Iris conseguiram puxar os primeiros coros por parte do público. A partir daí, foi uma linha ascendente a que melhor caracterizou a prestação dos Iris que souberam, entre covers e algumas das suas músicas mais conhecidos, cativar o público não desiludindo quem ali ficou para os ver.
O Palco principal da concentração viu-se acordado mais cedo no terceiro dia do evento. Ainda o sol ia alto no céu quando muitos se aproximaram para ver a eleição da Miss Faro 2011. Durante anos chamava-se a esta competição “Miss T-Shirt Molhada”, no entanto, como inevitavelmente muitas das participantes acabavam sem t-shirt, a organização decidiu, sempre de modo a não frustrar expectativas, alterar o nome da competição. A competição acaba sempre por levar muitos ao rubro e este ano teve um “gostinho” especial por contar na final com três portuguesas.
Poucas horas depois, já depois do sol ter-se posto no horizonte, foi a altura da entrega dos prémios às motas a concurso no Bike Show, a celebrar neste 30º aniversário de concentração o seu 20º aniversário.
Veio por fim a hora da música, com uma banda muito especial a subir ao palco nesta noite de sábado. Pela primeira vez, a Orquestra do Algarve e a Bibádoá Big Band, subiram ao palco da Concentração para um concerto com muito ritmo e muitos metais. Os motards mostraram que estão receptivos a novas experiências e abraçaram o concerto, dançando como podiam ao som da Big Band e da Orquestra que interpretava alguns temas clássicos do Jazz norte-americano de autores como Glenn Miller, Benny Goodman e James Last, entre outros, mas também Espirituais Negros, Dixieland e Sambas.
Em seguida, foi novamente a vez de um grupo espanhol subir ao palco: os Los Inhumanos. Se os Iron Maiden foram a banda especial do 30º aniversário, foi com os Los Inhumanos que a festa se fez. Apesar de uma entrada em palco algo austera, com os elementos da banda vestidos de membros do clero, depressa a banda marcou o ritmo do resto da noite. Música animada com direito a confetis e serpentinas, balões gigantes e muita animação no geral. Houve ainda direito a um casamento em palco – simulado, evidentemente – e até a um salto enérgico do palco para cima da multidão que via o concerto. De acordo com a própria banda, aquele foi o maior público para que alguma vez tocaram. O maior e provavelmente o mais animado, já que a energia contagiante da banda rapidamente se espalhou por todos os cantos do recinto onde a música se fazia ouvir.
Depois de um concerto longo por parte dos Inhumanos, foi a vez de se encerrar o palco da concentração com “prata da casa”. Se no primeiro dia foi a vez das lendas internacionais do heavy metal iniciarem as festividades, o seu encerramento coube às lendas nacionais do rock – os Xutos & Pontapés. A dispensar apresentações de qualquer espécie, o concerto iniciou-se com algumas palavras de agradecimento por parte de Zé Pedro, a demonstrar já estar recuperado do recente transplante de fígado. Por esta altura já eram muitos os braços cruzados em forma de X que se viam erguidos no público, numa clara demonstração de carinho quer pelo Zé Pedro, mas também de entusiasmo pela chegada da banda que, apesar de passados todos estes anos, ainda mobilizada tantas pessoas, gerando uma perfeita “xutomania”. Êxitos como «Contentores», «Para ti Maria», «Chuva dissolvente», «Dia de S. receber» ou «A minha casinha» fizeram com que um coro composto por dezenas de milhares de pessoas cantasse em uníssono.
Terminado o concerto dos Xutos e Pontapés, encerrava-se o palco da 30.ª edição da Concentração Internacional de Motos de Faro.
A DESPEDIDA
A despedida é sempre um momento emotivo em qualquer ocasião, mas especialmente nestas onde existe uma partilha muito peculiar entre pessoas que têm uma paixão comum. E o Domingo, por si um dia já particularmente deprimente, dá lugar a uma ansiedade antecipada de quem se terá que despedir de amigos e companheiros de estrada sabendo que o encontro, se tudo correr bem, só se dará por daí a um ano.
Contudo, há ainda tempo para um último momento conjunto: o grande desfile por Faro. São muitos os motards que, num sinal de agradecimento à cidade que os acolhe durante aqueles dias, percorrem as ruas da capital algarvia para gáudio dos que ali acorrem para os verem passar. Enquanto os motards agradecem a recepção, os farenses agradecem por sua vez a vinda dos motards, responsáveis pela dinamização de um concelho que parece ter perdido para outras cidades do Algarve um pouco da sua vivacidade.
E passaram-se assim 30 anos de Concentração. Para muitos, a celebração de uma paixão que se repete com mais ou menos frequência consoante a disponibilidade financeira ou de tempo, para outros, os mais resistentes, uma paixão contínua que dura de há 30 anos por esta data.
Podem ver aqui a galeria de fotografias do ilícito. São ao todo mais de 200 fotos com motos, pessoas, música e erotismo!







Também lá estive a comemorar o vosso xxx aniversário. ADOREI.