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[Crítica] Liars, 22 Julho @ Milhões de Festa

Há sempre um sítio e um tempo que as pessoas querem multiplicar pelo infinito para enfiar a cara lá dentro e nunca mais sair. Tem a ver com a conjugação de factores tão diferentes como o som, a temperatura, a humidade (muito importante), a luz e o estado do aparelho digestivo. É uma espécie de bocado que se quer roubar a um dia para poder colar em todos, como o outro, que tudo o que queria fazer era desfazer o dia para o montar à sua maneira.

Para algumas actrizes pornográficas amadoras isto é aquele pôr-de-sol californiano dentro de uma casa de banho exterior, numa banheira com espuma, velas aromáticas, vista para a praia e nem um caralho por perto.

Para os gajos que fazem anúncios, é a saída do emprego, dentro de um carro sem vestígios de pó, com ar condicionado e direcção assistida, música clássica e uma voz suave no GPS a relembrar as facilidades de pagamento.

De entre estes dois exemplos, devo dizer, simpatizo mais com o das actrizes, porque nunca consegui acreditar muito na publicidade. No que acredito, desde o dia 22 do presente mês, em Barcelos (Platuno), é nos Liars.

A verdade é que, ao vivo, coisas que me tinham parecido (talvez injustamente) hesitantes, sons que me tinham parecido estreitos e pouco abrangentes e que me fizeram pensar se as minhas colunas estavam a dar o prego, foram substituídas por selvajaria decidida e por uma capacidade de nos entornar o som pela armação abaixo de tal forma que até os sapatos ficaram alagados.

Além disso, foi um concerto que (escolha das músicas à parte) foi feito para quem  gosta de música, para quem prefere ouvir passagens instrumentais bem construídas e vê-las ser destruídas por barulho para depois voltarem a aparecer com o ar de  quem levou um murro nos beiços e gostou, tudo isto com muito cuidado – para quem prefere isto em vez de ouvir o vocalista dizer trinta vezes como o público é espectacular, o baixista pedir que batam palmas e o baterista dar lições de  moral.

O concerto dos Liars foi um banho de espuma ao pôr-do-sol californiano? Foi tanto isso como arrancar dentes no meio da praça de touros da Moita. Pouco importa. Mas numa coisa eu fui como aquelas actrizes, no tamanho do alívio por não ter ninguém por  perto para me foder os cornos.

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