Um aeroporto desactivado é um bom sítio para fazer escala. Sobretudo porque não se vai a lado nenhum.
Foi isso que fiz no Berlin Festival ao vivo no aeroporto de Berlin-Templehof, desactivado em 2008 e uma das maiores áreas não urbanas da cidade, bem perto do centro.
Outra coisa que fiz foi pegar nas minhas pernas e dirigir-me ao Hangar 4, último palco de uma extensão enorme de hangares em curva para ouvir Mogwai. Ouvi.
Os Mogwai tocaram tudo o que eu queria ouvir, com a energia que me faz vibrar e a lentidão que faz um bocado do meu cérebro arrefecer até à depressão portanto a relação João-Mogwai saiu fortalecida.
Quem gosta, gosta sempre. Bem quase sempre, mas sim, o fã de Mogwai ia gostar. Esticaram a Auto-Rock ao máximo, condensaram a Hunted by a Freak mas para mim foi suficiente. E mostraram o verdadeiro poder e originalidade da Rano Pano (e as fortíssimas e sucessivas camadas de guitarra com que nos chega) presente no último álbum para quem pensava que os Mogwai já se tinham esgotado completamente.
«Hardcore Will Never Die But You Will» (2011) mostra bem o que Mogwai pode ainda fazer.
Mas, todavia, porém, no entanto, não obstante, os Mogwai deram o concerto que os berlinenses quiseram ouvir. E tocaram como os berlinenses aplaudiam e interagiram com o mesmo desdém da audiência.
É um lugar comum dizer que os alemães são frios até quando se estão a divertir, abanando a cabeça humildemente e batendo apenas as palmas necessárias para intervalar os temas. Esta sensação com que fiquei deixou-me abatido como um cão sem dono há mais de dois meses no canil e aquela saudade emigrante do calorzinho português dos encores, dos gritos histéricos e do “you’re the best crowd in the world”.
Mesmo que seja mentira.

